Um Bom Ano (A Good Year, 2006)

Eu não consigo acreditar que é um filme de Ridley Scott, sinceramente. Não porque é ruim — na verdade, é um filme bacana — mas sim porque é a coisa que mais destoa de toda a filmografia do diretor.

Um Bom Ano é a história de um homem da cidade. Ou melhor, um homem de Londres, que passou os verões de sua infância com seu tio no vinhedo em Provence. Quando esse tio morre, o pequeno château e o vinhedo são herados para Skinner, aqui interpretado por Crowe. Aí começa aquelas histórias de redescoberta da infância e de um novo significado para a vida. É um mais do mesmo, claro, mas é bem filmado, bem atuado e se passa numa charmosa França interior. Não é o melhor de Scott, nem chega perto, nem recomendo que vá ver. Mas, se não tiver nada para assistir em um domingo de tarde e esse filme estiver passando no Telecine Touch, eu não te proibirei.

  • Prós: Crowe! Cottilard! Provence! Vinhos!
  • Contra: a mesma história! Sem novidade! Porque eu tô vendo isso?
  • Veredicto: não é nada demais, mesmo. Mas diverte, ao mesmo tempo que não preocupa.

Um Bom Ano (A Good Year, 2006). Reino Unido, Estados Unidos. Dirigido por Ridley Scott; escrito por Marc-Antoine Robert; fotografado por Philippe Le Sourd; editado por Dody Dorn; com Russel Crowe, Marion Cottilard, Tom Hollander, Albert Finney.

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Blade Runner: O Caçador de Andróides (Blade Runner, 1982)

Eu nunca vi a versão original de Blade Runner: O Caçador de Andróides. E nem quero. A versão do diretor, que eu tenho, é tão incrível que o faz um de meus filmes favoritos.

Na história temos Deckard, um ex-detetive chamado para voltar à ativa quando alguns replicantes (andróides idênticos aos humanos, porém mais inteligentes e mais fortes) chega à Terra. Blade Runner é ficção científica em sua essência: usa criações imaginárias para discutir nossos defeitos e nossas próprias dúvidas. O que seriam os replicantes senão um grupo de pessoas buscando mais tempo de vida, um significado maior, uma verdade absoluta?

  • Prós: tudo. Ridley Scott criou uma linda fábula futurista em um filme que não envelhece.
  • Contras: nada. Ou talvez o excesso de elementos em tela, mas é uma escolha artística a ser considerada.
  • Veredicto: Blade Runner é um dos meus filmes favoritos e a cada revisão ele fica melhor. A busca dos replicantes pelo seu criador possui uma simbologia tão grande, e o filme funciona tão bem, que não consigo pensar em outro sci-fi que tenha me surpreendido tanto. Um noir em seu esplendor.

Blade Runner: O Caçador de Andróides (Blade Runner, 1982). Estados Unidos, Hong-Kong. Dirigido por Ridley Scott; escrito por Hampton Fancher, David Webb Peoples, Roland Kibbee; baseado no livro “Do Android Dream With Electric Sheep?” de Philip K. Dick; fotografado por Jordan Cronenweth; editado por Gillian L. Hutshing; trilha-sonora composta por Vangelis; com Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos.

A Rede Social (The Social Network, 2010)

Segundo dia seguido com David Fincher e, dessa vez, temos uma obra muito mais madura, muito mais impressionante e, claro, muito mais furiosa.

A história dos criadores do Facebook, aqui em A Rede Social, é o plano de fundo onde David Fincher e Aaron Sorkin, diretor e roteirista, discutem as dissonâncias de uma sociedade sempre conectada, onde a conexão se dá acima da relação. Fincher, porém, não se segura e também exibe toda a sua destreza e demonstra o poder do cinema contemporâneo, com atuações sublimes e um argumento muito afiado. A Rede Social é o melhor filme de David Fincher e, com certeza, o nosso novo Cidadão Kane.

  • Prós: direção, roteiro, atuação, fotografia, edição e trilha-sonora impecáveis. A Rede Social é um trabalho tão perfeito quanto poderoso; o cinema americano em sua melhor forma.
  • Contras: absolutamente nenhum.
  • Veredicto: tão poderoso e tão urgente quanto Cidadão Kane foi em sua época, A Rede Social reflete a sociedade contemporânea ao mesmo tempo em que exibe o melhor do cinema de hoje.

A Rede Social (The Social Network, 2010). Estados Unidos. Dirigido por David Fincher; escrito por Aaron Sorkin; fotografado por Jeff Cronenweth; editado por Angus Wall, Kirk Baxter; trilha sonora composta por Trent Reznor, Atticus Ross; com Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin TImberlake, Rooney Mara.

Vidas em Jogo (The Game, 1997)

A primeira fase de David Fincher no cinema, que vai desde Seven até Clube da LutaVidas em Jogo é o mais diferente.

A história de um magnata que entra em uma verdadeira trama macabra, vendida como um jogo, e que o faz perder tudo, parar no México, ter jornais conversando com ele, e todo o tipo de coisa estranha acontecendo a sua volta é envolvente. São reviravoltas dentro de reviravoltas em um show de contar histórias (Christopher Nolan devia ter assistido esse filme pra estruturar os níveis existenciais de A Origem) que só David Fincher sabe fazer. Mas tem alguma coisa, alguma coisa grave, que eu não consegui distinguir, que faz esse Vidas em Jogo não ser tão envolvente ou tão magnífico quanto Seven.

  • Prós: a história é envolvente e muito bem contada; David Fincher já mostrava, em seu segundo filme, traços de direção artística que hoje são a sua base de estilo; o final merece palmas.
  • Contras: tem algo de muito estranho nesse filme, que o faz não funcionar tão bem quanto os outros filmes de finais surpresa do diretor.
  • Veredicto: um excelente filme de suspense, Vidas em Jogo te deixará tenso até o último mínuto, com um final bacanudo (embora redondinho). Mas não espere aqui explodir sua mente como em Seven.

Vidas em Jogo (The Game, 1997). Estados Unidos. Dirigido por David Fincher; escrito por John D. Brancato, Michael Ferris; fotografado por Harris Savides; editado por James Haygood; trilha-sonora composta por Howard Shore; com Sean Penn, Michael Douglas, Deborah Kara Unger.

Weekend (2011)

Weekend é um dos filmes mais poderosos que eu vi nos últimos tempos. O relacionamento sem passado e sem futuro de dois jovens britânicos é aqui exposto sem censura, sem firula, mas ainda assim com muita emoção.

É daqueles filmes que aparecem as vezes, mas que te levam por um bom tempo. Weekend consegue se sobressair sobre outros filmes de relacionamentos de curta duração por ser cru, mas ainda assim tratar sem nenhum pudor sobre sexualidade, medos e esperanças de jovens na atual Inglaterra. Weekend é honesto, e esse é seu maior primor. Você está assistindo a algo honesto, e a recompensa sempre será gratificante.

  • Prós: um filme irretocável, Weekend tem atuações incríveis, fotografia inteligente e simples, e uma história devastadora.
  • Contras: as seções do filme aqui no Brasil se resumem a um horário durante apenas uma semana. Um péssimo tratamento para um filme tão bom.
  • Veredicto: Weekend, com toda a sua honestidade, se equipara a O ProfetaAntes do Pôr-do-Sol no resultado final. Toda a revisão será tão, ou até mais, gratificante quanto a primeira vez.

Weekend (2011). Reino Unido. Dirigido, escrito e editado por Andrew Haigh; fotografado por Ursula Pontikos; com Tom Cullen e Chris New.

Jane Eyre (2011)

Eu gostei muito desse Jane Eyre. Eu não sabia nada da história (nem do livro que originou), e mesmo já tendo visto diversas releituras dessa mesma história, essa aqui parece ter funcionado.

Claro, é o bom e velho romance inglês, em um bom e recente filme de época inglês. Tem qualidade, tem movimento, e é muitíssimo bem produzido. Mia Wasikowska, a linda Annabel de Inquietos, aqui empresta seu talento pra Jane do título, uma jovem que sofreu na mão de sua tia, exilada em uma escola rígida, e dona de uma personalidade um tanto problemática. Mas ela vê no seu patrão, Mr. Rochester, um homem frio, mas ainda assim curioso — mas que mantém um grande mistério. É uma boa história de amor, bem contada e bem produzida. Leitor, eu gostei.

  • Prós: um bom filme de época, com aquele ar de cinema contemporâneo que algums diretores britânicos estão ousando; uma história muito bem contada, bem simples, mas ainda assim surpreendente; atuações incríveis de Mia Wasikowska e Michael Fassbender; ah, a sempre excelente trilha sonora de Dario Marianelli aqui só ajuda.
  • Contra: o final do filme me deixou meio torto. Tem alguma coisa faltando ali, não?
  • Veredicto: é bom ver o cinema britânico renovando clássicos desse jeito. Jane Eyre é uma boa surpresa pra quem, como eu, não esperava — e com um bônus de atuações de alto escalão.

Jane Eyre (2011). Reino Unido. Dirigido por Cary Fukanaga; escrito por Moira Buffini, Charlotte Brontë; fotografado por Adriano Goldman; editado por Melanie Oliver; trilha-sonora composta por Dario Marianelli; com Mia Wasikowska, Michael Fassbender, Judi Dench, Jamie Bell.

Poder Sem Limites (Chronicle, 2012)

Unir filmes de super-heróis, de “filmagem encontrada” e de adolecentes rebeldes. Aí está a fórmula de Poder Sem Limites, que conta a história de três jovens que ganham poderes telecinéticos, que vão ficando cada vez mais fortes.

É bacana a ideia de exibir um filme de super-herói como um falso documentário. O modelo que A Bruxa de Blair expôs ao mundo vinha se desgastando com a série de terror barato de Atividade Paranormal. Mas Poder Sem Limites dá um frescor, com novidades e quebrando os “paradigmas” do estilo. Não é irretocável: as atuações dos protagonistas são meio largadas demais e o roteiro é um pouco incoerente. Porém, é legal ver uma ideia bacana e bem executada, que já tem um gancho pra virar uma franquia.

  • Prós: uma ideia bacana que refresca o estilo de filmagem encontrada; um filme de super-heróis que sai do básico que é visto por aí nas oitocentas adaptações anuais.
  • Contras: tem muita cena inútil, que reflete a ainda imatura direção de um cara que precisa aprender a arte da síntese; as atuações são bem falsas e os furos do roteiro, gigantes.
  • Veredicto: um bom filme, sem dúvidas. Divertido e bem bolado. Não é o supra-sumo dos filmes de ação pequenos, mas uma bela brincadeira com vários gêneros complementares.

Poder Sem Limites (Chronicle, 2012). Estados Unidos. Dirigido por Josh Tank; escrito por Mark Landis e Josh Tank; fotografado por Matthew Jensen; editado por Elliot Greenberg; com Dane DeHaan, Alex Russell, Michael B. Jordan.

Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line, 1998)

Com um intervalo de vinte anos entre este e seu filme anterior, Dias no Paraíso (Days Of Heaven, 1978), Terrence Malick volta e faz o seu melhor filme em Além da Linha Vermelha, meu filme de guerra favorito.

Um retrato real e antiguerra, diga-se. Além da Linha Vermelha impressiona pela realidade de seus combates, todos filmados com uma destreza que só os filmes desse verdadeiro artista conseguem possuir. Um grande épico, mas também um ensaio intimista sobre a destruição humana e um profundo diagnóstico filosófico da guerra. Provocando meditações sobre natureza, humanidade e violência, Além da Linha Vermelha é, de longe, um de meus filmes favoritos. E meu favorito de Terrence Malick (que, convenhamos, só faz filme ótimo).

  • Prós: é, ao mesmo tempo, um épico conto de guerra e uma jornada profunda na mente dos soldados; um ensaio sobre a humanidade que não deixa perder nada para Koyannisqatsi; uma união dos melhores atores contemporâneos; e uma verdadeira aula de como editar um filme.
  • Contras: como todo o filme do Malick, é impossível conseguir extrair tudo o que for possível do filme.
  • Veredito: só vá e veja. Terrence Malick tem um modo próprio de se fazer cinema, mas esse é claramente um de seus filmes mais bem construídos e compreensivos. Além da Linha Vermelha, em suas quase três horas de filme, é o mais bem executado filme da década de 90.

Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line, 1998). Estados Unidos. Dirigido e escrito por Terrence Malick; fotografado por John Toll; editado por Leslie Jones, Saar Klein, Billy Weber; trilha-sonora composta por Hans Zimmer; com Sean Penn, John Cusack, Adrien Brody, James Caviezel, George Clooney, Jared Leto, John Travolta, Elias Koteas.

Durval Discos (2002)

Durval Discos não é ruim, mas não é excelente. É um ótimo filme-referência, que brinca com a cultura da música popular do Brasil ao mesmo tempo que discute a mudança midiática do éle pê pro CD. Não me empolgou a ouvir tudo o que é referenciado no filme, mas me divertiu.

Mas, também, não é nada inesquecível. A MPB precisa de um tributo melhor.

  • Prós: referências à música brasileira dos pés a cabeça; Marisa Orth, como sempre, ótima.
  • Contras: nada que realmente marque, é um filme divertido com um tema que merece bem mais.
  • Veretido: engraçado, mas até um certo ponto bem irrelevante, Durval Discos tem momentos muito bons, atores muito bons, mas nada demais pra contar.

Durval Discos (2002). Brasil. Dirigido e escrito por Anna Muylaert; fotografado por Jacob Solitrenick; editado por Vânia Debs; trilha-sonora por André Abujamra; som mixado por Miriam Biderman; com Ary França, Letícia Sabatella, Marisa Orth, Rita Lee.

O Iluminado (The Shining, 1980)

Eu não sei porque escolhi O Iluminado pra iniciar essa lista de filmes assistidos. Mas, no primeiro dia do ano, me pareceu a coisa certa começar com o melhor filme do Kubrick.

Adaptado de um romance do escritor Stephen King, O Iluminado é um filme de gênero bem definido e bem executado. Stankey Kubrick mostra todo o seu poder como um técnico do cinema, com steadycams hipnóticas e planos horripilantes, edição milimetricamente controlada e uma trilha sonora com poucos acordes que faz qualquer um se borrar nos primeiros minutos de filme. Tem a melhor atuação de Jack Nicholson até hoje e o plano-sequência da motoca, um dos meus favoritos de toda a história do cinema. É suspense bem construído e roteiro bem executado, e um dos únicos filmes de Kubrick que eu realmente gosto.

  • Prós: impecável estética e sonoramente, Jack Nicholson fazendo o que sabe de melhor; planos sequência bem executados e não gratuitos; terror, e suspense, como poucos sabem fazer.
  • Contras: ser um dos únicos filmes do Kubrick que eu gosto.
  • Veredito: um clássico sem dúvidas. O Iluminado é cinema em movimento, como deve ser. E bem feito. E atemporal. Um filme obrigatório para ver, rever e ter na coleção.

O Iluminado (The Shining, 1980). Estados Unidos, Reino Unido. Dirigido e produzido por Stanley Kubrick; escrito por Stanley Kubrick e Diane Johnson baseado no livroThe Shiningde Stephen King; fotografado por John Alcott; editado por Ray Lovejoy; com Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd.

Compre o filme em blu-ray ou DVD.