Toda Forma de Amor (Beginners, 2010)

Existem duas linhas temporais ocorrendo em Toda Forma de Amor: uma do pai de Oliver, que após a morte da esposa decide fazer dois anúncios: uma é que ele está morrendo de câncer, a outra é que ele, na verdade, é gay; a segunda timeline fala de Oliver em si, e como ele faz para superar a morte do pai ao mesmo tempo que absorve que, depois de décadas em um casamento feliz, finalmente seu pai teve a chance de viver com honestidade.

É interessante seguir uma história em dois pontos específicos simultaneamente. A mais óbvia característica é que podemos traçar paralelos quanto a reação de Oliver em ambas as situações, e como as descobertas sobre seu pai e sua namorada o ajudam a entender a si mesmo.

Óbvio, nenhum tema é muito novo. Toda Forma de Amor fala sobre pessoas se auto-compreendendo independentemente de idade ou saúde, conceitos ou opiniões alheias. É um estudo de personagem, que foge do lugar-comum do cinema independente americano ao não criar situações estranhas ou criar arquétipos distintos. Toda Forma de Amor é o que é: uma história simples sobre pessoas que, olha só, se descobrem.

  • Prós: as excelentes atuações de Ewan McGregor, Mélanie Laurent e, claro, do excepcional Christopher Plummer; a forma inspirada com que Mills dirige o filme;
  • Contras: é um filme que, embora faça bem em não inovar em nada, também não luta para fugir de um lugar comum em estudo de personagens. Você já viu várias coisas parecidas com Toda Forma de Amor.
  • Veredicto: embora bastante parecido com qualquer outro filme do tema, Toda Forma de Amor tem, a seu favor, uma abordagem muitíssimo bem pensada e atores excelentes em papéis a sua altura. Só isso já é um bom motivo para ver, se você precisa de mais um, saiba que o filme traz personagens tão deliciosos que você gostaria de assistí-los a vida inteira.

Toda Forma de Amor (Beginners, 2010). Estados Unidos. Escrito e dirigido por Mike Mills; fotografado por Kasper Tuxen; editado por Olivier Bugge Coutté; com Ewan McGregor, Christopher Plummer, Mélanie Laurent, Goran Višnjić, Ming Kai Leung, Mary Page Keller, Keegan Boos, China Shavers, Lou Taylor Pucci, Melissa Tang, Luke Diliberto.

Apenas Uma Vez (Once, 2006)

A teatralidade do filme musical é um dos vários problemas que eu vejo no gênero. Parece que ninguém gosta de mexer com as bases desse tipo de filme, porque é tudo uma tentadiva de imitar o que Cabaret fez (só que, convenhamos, ele fez melhor). Apenas Uma Vez foge à regra. Assim como Cabaret, mantém-se a música como tema e como linguagem, mas sai a sensação de palco de teatro e entram as ruas.

Visualmente simples, Apenas Uma Vez é regido pelo casal de personagens, O Cara e A Garota. O diretor John Carney sabiamente parece apenas deixar a câmera rodando e os atores interagindo. É claro, só se consegue um resultado assim com um roteiro bem escrito e muito ensaio (a naturalidade indestrutível de Antes do Pôr-do-Sol se deve à quatro semanas de ensaio, e só uma de gravação), mas a entrega da história para que seus personagens conduzam resulta em um filme que fala através deles, da interação deles e do estilo que ambos exalam em suas músicas.

Feito com músicos reais (ambos fazem parte de uma dupla na Irlanda, inclusive), Apenas Uma Vez deve à essa naturalidade, e na forma como a música serve tanto como linguagem (note a cena da loja de instrumentos, um início de relacionamento transcrito em uma aula de música) como em tema. Isso é um musical que se preze. Essa é a forma do cinema em fazer musicais. Dando ênfase ao personagem, e não ao espetáculo. Porque é principalmente deles que é formado Apenas Uma Vez.

  • Prós: a forma sincera com que o filme é regido através de seus personagens e o uso da música como a linguagem de se transpor uma história que usa essa mesma música como tema de um relacionamento.
  • Contras: nenhum.
  • Veredicto: Apenas Uma Vez possui uma história simples e prática. Você já viu várias vezes coisas parecidas. Mas é na interação dos personagens, e na forma com que ela é contada e como ela é contada, que fazem a diferença. Eu nunca pensei que um musical seria a melhor forma de narrar uma história simples como essa.

Apenas Uma Vez (Once, 2006). Irlanda. Escrito e dirigido por John Carney; fotografado por Tim Fleming; editado por Paul Mullen; trilha-sonora composta por Glen Hansard, Markéta Irglová; com Glen Hansard, Markéta Irglová, Hugh Walsh, Bill Hodnett, Danuse Ktrestova, Gerard Hendrick.

O Hobbit: A Desolação de Smaug (The Hobbit: The Desolation of Smaug, 2013)

O Hobbit: A Desolação de Smaug é, em todos os sentidos, um filme superior à O Hobbit: Uma Jornada Inesperada. Desde a forma com que a história é narrada (está mais compassada, mais ligeira, não é uma enrolação gigante) até os efeitos visuais, em uma época que a computação gráfica de um mês atrás já parece ser muito ultrapassada. Bilbo, aqui, é um personagem bastante inútil, mas isso porque o filme vive na promessa de entregar um Smaug fantástico.

Ele entrega. Smaug é um personagem em computação gráfica que coloca até mesmo o Gollum de O Senhor dos Anéis no chinelo. Ambos tem bons atores por trás, mas aqui é mesmo o quanto da performance do intérprete que essa tecnologia pode capturar. E nisso não há o que reclamar. Smaug é uma das criaturas mais fascinantes que apareceram na Terra-Média.

Agora, os problemas mais perceptíveis estão lá: a tecnologia continua sendo mal-utilizada, uma vez que os 48fps requerem uma linguagem visual diferenciada daquilo que pode ser visto em 24fps, e Peter Jackson não entrega. Jackson não entrega, também, um motivo para que O Hobbit não tenha sido um filme só. Falta aquilo que se fez presente em O Senhor dos Anéis e que o colocava no patamar de qualidade que ele está: é propriamente um filme, pode ser assistido como tal. Mas se você ver cada uma das partes da trilogia em separado, você pode notar um arco bem definido com um pico emocional explícito. Ou seja, tanto A Sociedade do AnelAs Duas Torres quanto O Retorno do Rei são filmes independentes entre si. Tanto Uma Jornada Inesperada quanto A Desolação de Smaug não entregam uma experiência completa conjunta ou separada. Esse novo filme até sabe como lidar com isso, uma vez que é o interlúdio, mas colocar todas as promessas de que tudo será melhor em Lá e De Volta Outra Vez pode não ser a melhor pedida. Jackson tem muita (muita mesmo) chance de errar.

  • Prós: superior ao filme anterior, A Desolação de Smaug entrega um roteiro não tanto prolixo, e as liberdades narrativas de Jackson melhoram a fluidez de um filme que também não progride tanto em história quanto o anterior; os efeitos visuais, principalmente Smaug, impressionam.
  • Contras: como os 48fps de Uma Jornada Inesperada não surpreenderam ninguém, é visível que ocorreu um descaso maior com a publicidade da tecnologia nesse filme. E há motivos para isso, uma vez que A Desolação de Smaug não apresenta um bom uso dessa tecnologia. O roteiro ainda é o maior problema, esse filme não apresenta um motivo sequer para que a trilogia O Hobbit não seja, afinal, um filme.
  • Veredicto: não faz jus aos méritos da Trilogia do Anel, mas O Hobbit: A Desolação de Smaug corrige algumas falhas do filme anterior e dá a entender que a terceira parte, que virá no ano que vem, pode enfim colocar essa trilogia em um lugar de destaque. Por enquanto, não há motivo algum.

O Hobbit: A Desolação de Smaug (The Hobbit: The Desolation of Smaug, 2013). Nova Zelândia, Estados Unidos. Dirigido por Peter Jackson; escrito por Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson, Guillermo del Toro, baseado no romance escrito por J.R.R. Tolkien; fotografado por Andrew Lesnie; editado por Jabez Olssen; trilha-sonora composta por Howard Shore; com  Benedict Cumberbatch, Luke Evans, Martin Freeman, Cate Blanchett, Evangeline Lilly, Richard Armitage, Hugo Weaving, Ian McKellen, Elijah Wood, Manu Bennett, Lee Pace, Christopher Lee, Stephen Fry, Andy Serkis, Aidan Turner, William Kircher, Billy Connolly.

Beleza Americana (American Beauty, 1999)

Eu atrasei o máximo que pude pra rever Beleza Americana porque esse filme merece um bom dia. Não porque ele é volátil dependendo do seu humor — pelo contrário, ele refaz o seu humor. Você precisa meio que fazer um ritual para vê-lo, pra não ofendê-lo. Sam Mendes criou uma das melhores peças do cinema ao filmar um conto tipicamente americano: o quão lindos são os subúrbios de classe média-alta americanos. E quão… peculiares eles são.

Se a representação do subúrbio havia sumido por alguns anos do cinema, foi Mendes que rebuscou essa alegoria — e a colocou em outro patamar. A vida de Lester Burham é uma das jornadas mais deliciosas já vistas no cinema. Ele anuncia a tragédia logo no início pra que você só tenha que se preocupar em como vamos chegar lá. Ele chega, e até lá Beleza Americana só surpreende. Seja no roteiro estupidamente afiado; a fotografia extremamente centrada de Conrad L. Hall, e a trilha-sonora já eternizada de Thomas Newman.

A cena da sacola é alegórica: estamos mesmo anestesiados com o mundo que ver uma simples sacola voando no ar é realmente aquilo que te faz acordar? Talvez seja por isso que muitas vezes Lester está na cama, um pouco antes de levantar, em Beleza Americana. Ele define o argumento: acorde, EUA, o sonho sequer existiu, e Lester está aí para provar isso. Ao acordar para fora desse sonho de estofados caros, reuniões de gente chata e uma linda casa cheia de rosas que não podem ser tocadas, existem seres humanos gritando para serem ouvidos por si mesmos. Lester ouviu e paga por isso. Não é permitido acordar do sonho americano, afinal.

  • Prós: a direção precisa e afiadíssima de Sam Mendes, acompanhado pelo roteiro esplêndido de Alan Ball e as atuações eternizadas de Kevin Spacey e Annette Bening.
  • Contras: nenhum.
  • Veredicto: Beleza Americana é um clássico instantâneo não porque cria um tema novo (ele não cria) ou recupera algo que o cinema não lembrava como se faz (ele recupera). Mas porque ele une muitas, muitas ideias boas na mão de uma equipe que está empenhada em fazer todas elas funcionarem bem. Aí está o segredo de um bom filme — entender que é uma arte coletiva, e não de um autor só. São vários os nomes que fazem Beleza Americana ser o filme único que ele é, não só a assinatura de seu diretor.

Beleza Americana (American Beauty, 1999). Estados Unidos. Dirigido por Sam Mendes; escrito por Alan Ball; fotografado por Conrad L. Hall; editado por Tariq Anwar, Christopher Greenbury; trilha-sonora composta por Thomas Newman; com Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Wes Bentley, Mena Suvari, Chris Cooper, Peter Gallagher, Allison Janney, Scott Bakula, Sam Robards, Barry Del Sherman.

Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire, 2013)

Rapidinha porque o filme é patético.

É exatamente a mesma coisa que o filme anterior, só que melhor dirigido. Até aí tudo bem. O problema: ele realmente é a mesma coisa. Ele acaba e começa no mesmo lugar (será que o terceiro filme vai ser assim também?).

Não tem sentido pra existir, realmente. Jogos Vorazes: Em Chamas é desperdício de dinheiro tanto da produtora quanto do espectador. Personagens em uma emoção cíclica pra mim já basta a saga Crepúsculo. Por mim, está acabado.

Agora, desculpa o mau humor, mas é o seguinte. Jogos Vorazes possui personagens interessantes e um subtexto político bacana. Aqui ele progride bem até começar esses “jogos vorazes especiais”, onde tudo no filme anterior se repetem, e praticamente reseta o argumento. Isso aí me deixa puto.

  • Prós: os mesmos de Jogos Vorazes, mais uma direção mais interessante.
  • Contras: quase tudo. É totalmente sem sentido fazer um filme igualzinho ao anterior, com exceção daquela primeira parte. Os personagens começam e terminam no mesmo lugar.
  • Veredicto: me explica a utilidade, como filme, de Em Chamas? Eu realmente não entendo. “Ah, mas isso é porque você não leu os livros”. Realmente, isso é irrelevante. Como filme, como obra cinematográfica, é mais que inútil. É desperdício.

Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire, 2013). Estados Unidos. Dirigido por Francis Lawrence; escrito por Simon Beaufoy, Michael Arndt, Suzanne Collins; fotografado por Jo Willems; editado por Alan Edward Bell; trilha-sonora composta por James Newton Howard; com Jennifer Lawrence, Liam Hemsworth, Jack Quaid, Taylor St. Clair, Sandra Ellis Lafferty, Woody Harrelson, Josh Hutcherson, Paula Malcomson, Willow Shields, Donald Sutherland, Elizabeth Banks, Bruce Bundy, Nelson Ascencio, Lenny Kravitz, Stanley Tucci, Afemo Omilami, Kimberley Drummond, Deena Beasley, Philip Seymour Hoffman.

Brüno (2009)

Eu não sabia onde colocar minha cara enquanto assistia a Brüno. Eu já achava Borat! um filme que extrapolava no chamado humor extremo, em que a risada vem por causa do desconforto, quase por causa do medo. Mas Brüno extrapola qualquer parâmetro. Assistir é mais que desconfortável — mas muito, muito engraçado.

Em Brüno, Sasha Baron Cohan faz um guru da moda vindo da Austrália, que quer muito o estrelato mundial. É óbvio que ele vai, então, para Los Angeles, porque Hollywood é o sinal disso. É algo como Borat!, em que um repórter do Cazaquistão vai pros EUA fazer um documentário sobre a cultura americana. Mas é sem noção, completamente sem noção as situações com que Brüno dá aos “coadjuvantes”, pessoas reais que não sabiam da gravação e que, só depois, saberiam que aquilo era, na verdade, parte de um filme.

Talvez esse seja o maior primor de Brüno: buscar a reação mais pura das pessoas nas situações críticas que o filme coloca. Ele critica seriamente o quão hipócritas são as pessoas com aquilo que elas mesmo pregam ou acreditam e, se não tem o mesmo nível de sucesso de Borat!, ele ao menos compensa em um nível bem maior de sátiras. Brüno é o mais democrático dos filmes: ele ofende a todos.

  • Prós: a potência do humor extremo que Sasha Baron Cohan e Larry Charles conseguem enxugar em um personagem extremamente caricato.
  • Contras: há situações de extremo desconforto, embora ainda assim engraçadas.
  • Veredicto: pode não ser tão bem sucedido com seu argumento quanto foi Borat!, mas Brüno é uma excelente alternativa àqueles que não gostam dos filmes de Sofia Coppola sobre o culto da celebridade. Aqui vemos outra maneira de tratar o tema. Não é uma maneira tão poderosa, mas ao menos é divertidíssima.

Brüno (2009). Estados Unidos. Dirigido por Larry Charles; escrito por Sacha Baron Cohen, Anthony Hines, Dan Mazer, Jeff Schaffer, Peter Baynham; fotografado por Anthony Hardwick, Wolfgang Held; editado por Jon Corn, Scott M. Davids, Eric Kissack, James Thomas; trilha-sonora composta por Erran Baron Cohen; com Sacha Baron Cohen, Richard Bey, Ron Paul, Bono, Snoop Dogg, Sting, Elton John, Chris Martin, Slash, Paula Abdul.

Quero Ser John Malkovich (Being John Malkovich, 1999)

Ser feito de marionete pelo diretor é raro. E poucos conseguem evitar aquela frustração de que a manipulação não é feita em favor de um roteiro fraco. Hitchcock talvez seja o diretor mais reconhecido por conseguir essa impressão — de manipular o espectador e este sair satisfeito no final. Imagine se ele tivesse feito Quero Ser John Malkovich.

Bem, Hitchcock nunca poderia fazê-lo. Ele é um filme todo de Jonze. Já no seu filme de estréia, ele consegue brincar com o espectador em uma deliciosa virtuose do que é realmente o filme e do que é interpretação de sua parte. É um labirinto sem saída e ele, ao lado de seu fiel escudeiro Charlie Kaufman (o roteirista do também maravilhoso Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças), nos joga em vários pontos para que nós tentemos bolar ao menos um plano. É uma brincadeira mágica.

Se fosse só uma brincadeira, porém, Quero Ser John Malkovich não teria por que ser um filme. Mas ao ser justamente uma discussão do que é realmente a ideia do diretor e em qual ponto entra o espectador nessa interpretação, bem, aí sim ele mostra seu valor. Em um filme onde fantoches que trabalham no 7 1/2 andar de um escritório misterioso e encontram lá um túnel que leva para a mente de John Malkovich onde eles podem ficar uns minutos antes de serem jogados do céu para Nova Jersey é realmente impossível de prever onde tudo vai levar. Quero Ser John Malkovich é uma viagem deliciosa pela mente de várias pessoas e uma brincadeira que nos faz enxergar o que forma um filme: onde estão as ideias que são nos dadas e onde entram as nossas próprias. Ele vai te dar um nó na cabeça. Mas é simplesmente fascinante.

  • Prós: a virtuose gigante da jornada dos funcionários do 7 1/2 andar que entram num túnel e saem na cabeça de John Malkovich. As atuações nada menos que excepcionais de John Cusack, Cameron Diaz (hilária), Catherine Keener e, claro, John Malkovich.
  • Contras: você pode ver 700 vezes, nunca vai pegar toda a ideia.
  • Veredicto: Malkovich, Malkovich, Malkovich, Malkovich, Malkovich, Malkovich? Malkovich! Malkovich, Malkovich.

Quero Ser John Malkovich (Being John Malkovich, 1999). Estados Unidos. Dirigido por Spike Jonze; escrito por Charlie Kaufman; fotografado por Lance Acord; editado por Eric Zumbrunnen; trilha-sonora composta por Carter Burwell; com John Cusack, Cameron Diaz, Catherine Keener, John Malkovich, Ned Bellamy, Charlie Sheen, Orson Bean, Mary Kay Place.

A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, 2006)

É até triste que o ator Ulrich Mühe tenha morrido logo após a conclusão de A Vida dos Outros. Embora seja um ótimo filme em todas as frentes, é na interpretação do capitão Wieler que vemos o poder que as atuações tem sobre a também excelente história do filme. Ele, literalmente, move a narrativa pra frente só com as duas mãos.

A Vida dos Outros é uma trágica história de amor situada no regime extremamente fechado da polícia soviética da Alemanha Oriental. Em Berlin, o capitão Wieler tem como objetivo literalmente escutar a vida dos outros, desde conversas sobre o trabalho que o espionado tem com seus colegas até os momentos íntimos na cama com a esposa. O problema é quando Wieler se vê tão ligado à vida de um autor alemão — o único a favor da Alemanha soviética — e de sua esposa, que o sistema começa a falhar.

Só pelo tema, A Vida dos Outros já é fantástico. Eu sou fascinado por pessoas que viveram nos países fortemente fechados pelos soviéticos (como a Romênia de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias) e a força que eles têm para contar os episódios que marcaram essa passagem destruidora pelos seus países — e como gritam desesperados para evitar que algo do gênero aconteça novamente. E em A Vida dos Outros o diretor Florian Henckel von Donnersmarck (socorro) utiliza toda a normativa técnica do cinema para criar uma história que flui com força durante toda a projeção, e que te deixa tenso de tão íntimo, e tão desconfortável, que se transforma a espionagem Stasi. É um excelente filme que eterniza um ator que demorou para sair do seu país. Uma pena que foi tarde demais.

  • Prós: a irreparável atuação de Ulrich Mühe e a maneira bastante acadêmica, porém ainda assim tensa, com que Donnersmarck progride com a narrativa (que também é muitíssimo interessante por si só).
  • Contras: como toda a trágica história de amor, existe algum teor um tanto melodramático em determinadas cenas do filme que o destoam. Não é todo o momento, e nem mesmo atrapalham o todo.
  • Veredicto: talvez um dos melhores filmes que vi pela primeira vez esse ano, A Vida dos Outros é um excelente exemplo do rigor que existe no cinema alemão e na maneira bruta, mas fascinante, com que eles narram suas histórias naturalmente interessantes. Porém, é na atuação de Mühe, que o filme encontra não só seu brilho, como também seu guião.

A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, 2006). Alemanha. Escrito e dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck; fotografado por Hagen Bogdanski; editado por Patricia Rommel; trilha-sonora composta por Stéphane Moucha, Gabriel Yared; com Ulrich Mühe, Martina Gedeck, Sebastian Koch, Ulrich Tukur, Thomas Thieme, Hans-Uwe Bauer, Volkmar Kleinert, Matthias Brenner, Charly Hübner.

O Espelho (Зеркало, 1975)

O Espelho é, de alguma forma, o equivalente para Andrei Tarkovsky do que Terrence Malick fez em 2011 com A Árvore da Vida. É um filme extremamente pessoal em que você é transportado para a mente e impressões do diretor.

Tarkovsky não busca criar uma autobiografia com O Espelho. Ele busca, com metáforas, exibir suas impressões sobre a infância e sobre o futuro de seu país. Tarkovsky mistura seus parentescos (tanto mãe como pai são exibidos no filme), seus sonhos, suas realizações e suas decepções para criar algo que, mesmo extremamente pessoal, progride com extrema destreza narrativa.

É difícil de citar qualidades e defeitos em O Espelho porque ele não é formado por nenhum deles. Assim como o filme de Malick, ele funciona no fluxo da mente de seu criador. É um ensaio sobre a vida que ele teve e uma impressão para seu passado, seu futuro e o que ele foi naquele momento em que o filme foi escrito (e, justamente por isso, reescrito inúmeras vezes). É uma jornada fascinante pela mente de um dos cineastas mais fantásticos do cinema. É difícil? Sim. É incompreensível também. Mas é mágico. Uma jornada através do espelho que é a sua própria alma.

  • Veredicto: O Espelho é simplesmente fascinante. Perturbador por estarmos vasculhando a mente de outra pessoa, mas incrível pela jornada de descobertas, sonhos e medos. O Espelho é imortal — é uma ideia que ganha vida no cinema.

O Espelho (Зеркало, 1975). Escrito e dirigido por Andrei Tarkovsky; fotografado por Georgi Rerberg; editado por Lyudmila Feiginova; trilha-sonora composta por Eduard Artemyev; com Margarita Terekhova, Ignat Daniltsev, Larisa Tarkovskaya, Alla Demidova, Anatoli Solonitsyn, Oleg Yankovsky.

Os Pássaros (The Birds, 1963)

Alguns chamam Os Pássaros de “o filme de monstros do Hitchcock”. Óbvio, é um filme de monstros mais único se você observar assim. Mas não deixa de ser verdade.

Junto a Janela IndiscretaOs Pássaros é meu filme favorito de Alfred Hitchcock. É outro de suas obras que definiram o que é o thriller no cinema. E talvez seja o mais bem sucedido de todos ao ser uma vitrine de suas inovações narrativas. Diferente de Um Corpo que Cai, nada parece estar aqui apenas para justificar mais uma surpresa ao espectador. Tudo está ali para satisfazer e enriquecer a narrativa, mais e mais. E, se Hitchcock já a satisfaz só em colocá-la na tela, querendo melhorar algo já excelente ainda mais é simplesmente fantástico.

Após flertar com um homem em uma pet shop, levando um casal de periquitos, Melanie vai com ele para Bodega Bay. Estranhamente, pássaros começam a atacar a cidade, e tais ataques ficam cada vez maiores e mais perigosos. É um mistério o que leva os pássaros a se comportarem de tal forma (e Hitchcock entrega suspeitas a todo o instante, inclusive no último take), mas não é só isso que nos leva adiante em Os Pássaros. A forma como esse mistério se multiplica durante a narrativa, criando mais questões e, mesmo assim, nunca perdendo o fio central, tornam essa uma das mais fascinantes jornadas de personagens. É o modo como Hitchcock, ao flertar com o horror, simplesmente cria uma das melhores realizações do gênero. E uma obra-prima cinematográfica.

É um legado inestimável. Os Pássaros talvez seja o filme que mais seja imitado no cinema de terror. Em cada plano de Hitchcock há o uso do som e da iluminação para criar não o susto, mas o suspense. Um suspense crescente que, inevitavelmente, cresce para o horror.

  • Prós: a inestimável qualidade com que Alfred Hitchcock cuida de suas histórias, seus personagens, e como ele exibe, com precisão, o que é necessário em cada frame do filme — e o que ele omite também.
  • Contras: nenhum.
  • Veredicto: uma obra-prima do horror, Os Pássaros é um dos melhores filmes de Hitchcock, talvez até o melhor. Não pela ausência de um plot twist, o que as pessoas amam, mas por, sem a necessidade de uma virada no final, saber impressionar até no fade out.

Os Pássaros (The Birds, 1963). Estados Unidos. Dirigido por Alfred Hitchcock; escrito por Evan Hunter; fotografado por Robert Burks; editado por George Tomasini; com Tippi Hedren, Suzanne Pleshette, Rod Taylor, Jessica Tandy, Veronica Cartwright, Ethel Griffies, Charles McGraw, Doreen Lang, Ruth McDevitt, Joe Mantell, Malcolm Atterbury, Karl Swenson, Elizabeth Wilson, Lonny Chapman, Doodles Weaver, John McGovern, Richard Deacon, Bill Quinn.