Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985)

Eu gosto muito de coming-of-age’s. É um tema que pode ser tratado de diversas formas, dependendo da visão do diretor, da visão dos atores sobre seus personagens, da visão do público… é um tema universal e, por isso, há toda essa infinidade de possibilidades. Mas eu nunca entendi o amor das pessoas pelo Clube dos Cinco.

É um filme bacana, sim. Tem cinco personagens bacanas que conversam sobre a estrutura social do high school americano e, consequentemente, de como funciona a estratificação social dos Estados Unidos como um todo. Mas ele não foge de nenhum clichê, e parece que tá nem aí — inclusive, ele os cita bem no início: o jogador de basquete, a princesa, o criminoso, o cérebro e a estranha. Os tipos do ensino médio estão devidamente representados. Tudo bem, a maioria dos filmes de coming-of-age possuem esses clichês porque realmente existe essa divisão. Mas nada foge do lugar.

Inclusive, o jogador de basquete começa a gostar da estranha quando a patricinha vai lá e arruma ela para se encaixar no clube das patricinhas da escola. Sério? Eu engulo o patriotismo doente de O Expresso da Meia-Noite, mas não essa lavagem cerebral.

  • Prós: personagens interessantes com diálogos interessantes;
  • Contras: nada foge do interessante ou da promessa de ser interessante. Eu realmente tento, mas não entendo, o que tem de especial em Clube dos Cinco;
  • Veredicto: existem coming-of-age que eu levo pra minha vida toda. Eles surgem a torto e a direito mas há uma porcentagem muito alta de coisas muito boas ali. Justamente um dos maiores símbolos do gênero, porém, eu não consigo engolir. Pra mim, Clube dos Cinco é muito melhor na forma que os outros o homenageiam do que como um filme em si.

Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985). Estados Unidos. Escrito e dirigido por John Hughes; fotografado por Thomas Del Ruth; editado por Dede Allen; trilha-sonora composta por Keith Forsey; com Judd Nelson, Emilio Estevez, Molly Ringwald, Ally Sheedy, Anthony Michael Hall, Paul Gleason, John Kapelos.

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O Casamento do Meu Melhor Amigo (My Best Friend’s Wedding, 1997)

A época de festas de final de ano é o momento perfeito para você assistir ao que se chama guilty pleasure, aqueles filmes que você tem vergonha de dizer que gosta, mas não perde a chance de sentar e assistir. O que eu mais leio sobre O Casamento do Meu Melhor Amigo, o filme obrigatório em todas as vésperas de natal aqui em casa, é que ele é o guilty pleasure favorito de todo o mundo. Que coisa boa.

Na verdade O Casamento do Meu Melhor Amigo tem muitos méritos. Ele não é um filme que se destaca por ter uma fotografia exemplar ou uma edição primorosa, mas toda a carga do filme é carregada pelos atores e, nossa, é muito bom assistir Julia Roberts tão boa assim. E ela tá cercada de atores que interpretam personagens divertidos em situações que nunca parecem forçadas (com uma ou outra exceção). É um filme sem preocupações e sem cargas dramáticas, sem subtexto (ou texto algum), e um filme perfeito para ficar sentado esperando aquela droga do Chester ficar pronto.

Tem seus problemas de progressão? Tem. E talvez seja por isso que P.J. Hogan não se tornou um dos nomes poderosos de comédias românticas, que possuem nomes fortes e que produzem filmes bons. O Casamento do Meu Melhor Amigo pode até ser guilty pleasure, mas o prazer de se ver ele está acima da culpa de gostar do filme. Ele tem seus méritos.

  • Prós: ótimos personagens em um filme redondinho;
  • Contras: Dermot Mulroney é um ator ruim pra todo o sempre; o filme perde a chance de ser ainda melhor ao forçar algumas tiradas;
  • Veredicto: não há nada que esbanje talento em O Casamento do Meu Melhor Amigo, mas eu vi tanto filme cheio de subtexto esse ano, que se empluma em fotografias bonitas e truques de edição, que ver só uma câmera rolando com alguns personagens com bons diálogos e cenas divertidas já me valem a revisão. É um pequeno clássico daqueles que ninguém tem coragem de classificar.

O Casamento do Meu Melhor Amigo (My Best Friend’s Wedding, 1997). Estados Unidos. Dirigido por P. J. Hogan; escrito por Ronald Bass; fotografado por László Kovács; editado por Garth Craven, Lisa Spoonhauer; trilha-sonora composta por James Newton Howard; com Julia Roberts, Dermot Mulroney, Cameron Diaz, Rupert Everett, Philip Bosco, M. Emmet Walsh, Rachel Griffiths.

O Sacrifício (Offret, 1986)

O Sacrifício é, desde o início, uma despedida de Andrei Tarkovsky. É um tributo do mestre russo ao mestre sueco. E um adeus de um diretor ímpar no cinema mundial, entregando não só sua obra definitiva, mas também um dos mais lindos poemas visuais que o cinema já viu.

Em O Sacrifício, Alexander é um jornalista, filósofo e ator aposentado que está celebrando seu aniversário com a família e amigos. Porém, tudo muda quando é anunciado o início da Terceira Guerra Mundial.

É como uma carta de adeus. Tarkovsky, em duas horas e vinte minutos (e apenas cento e quinze cortes) narra a jornada de Alexander em dar a Deus tudo o que ele tem para que a Guerra acabe. Tarkovsky, que viveu no auge da Guerra Fria e foi exilado de seu país após Stalker, revela seus temores de um futuro que ele sabia que não iria presenciar e de seu passado em seu país. Ainda mais pessoal que O EspelhoO Sacrifício navega na mente de seu realizador como um barco no meio de um mar calmo. É lento, tímido e abrupto. Mas quando acaba, e Tarkovsky dá seu último adeus ao mundo do cinema, você sabe que ali acabou uma das maiores obras já postas em filme.

  • Veredicto: um adeus de Tarkovsky ao cinema (o filme foi finalizado alguns meses antes da morte do diretor em decorrência ao câncer provocado pelas gravações de Stalker), O Sacrifício talvez seja o mais belo filme que eu vi esse ano. Um tributo à vida, ao medo e ao passado, sem nunca dar conclusões ou respostas exatas. É um filme tão misterioso quanto magnífico.

O Sacrifício (Offret, 1986). Suécia. Escrito e dirigido por Andrei Tarkovsky; fotografado por Sven Nykvist; com Erland Josephson, Susan Fleetwood, Tommy Kjellqvist, Allan Edwall.

Persona (1966)

Em alguns bons filmes, existem alguns milésimos de segundo que você simplesmente esquece que está assistindo a um filme. Seu cérebro está tão dentro da imagem que, durante essa fração de segundo, você se torna um personagem em cena, esquece a barreira do real e do filme.

Já sendo um fã de Ingmar Bergman, eu fiquei impressionado ao constatar com Persona a sua genialidade. É um filme para falar pouco aos outros, pois a grande pegada é a surpresa. Não uma reviravolta, mas uma progressão que lhe atingirá em cheio. A genialidade de Persona está, porém, no uso da imagem (afinal é isso que é o cinema). Todo baseado em luz e sombra (como uma projeção de película costumava ser), Persona brinca com o dentro e fora do campo, com o filme e seu espectador. Com Elisabeth e com Anna.

A magia de Persona acontece justamente naquela fração de segundo que esquecemos que estamos apenas vendo um filme. Quando mergulhamos na imagem, na luz e na sombra da fotografia, nos confundimos com Anna e com Elisabeth, nos confundimos com o que realmente está sendo assistido e o que está sendo vivido. É uma fração de segundo. É menos que isso. Mas quando Persona pega o espectador de jeito, ele não vai querer que o filme largue nunca mais.

  • Prós: o trabalho de mestre (e de mágico) que Bergman faz usando as luzes e as imagens sempre a favor da história. É um drama psicológico dos mais intrigantes que eu já assisti.
  • Contras: nenhum.
  • Veredicto: Persona é uma viagem com ligação direta ao filme, em que esquecemos que é um filme mesmo e nos enganamos com o que estamos vendo. É para ser visto mais de uma vez, devido as diversas camadas narrativas e psicológicas com as quais Bergman aprecia explorar. Nunca é construído para confundir o espectador — Persona é construído para enriquecê-lo.

Persona (1966). Escrito e dirigido por Ingmar Bergman; fotografado por Sven Nykvist; editado por Ulla Ryghe; trilha-sonora composta por Lars Johan Werle; com Bibi Andersson, Liv Ullmann, Gunnar Björnstrand, Margaretha Krook.

Cenas de um Casamento (Scener ur ett äktenskap, 1973)

Assim como em Fanny & Alexander, decidi embarcar na versão definitiva de Cenas de um Casamento. A versão com quase cinco horas, dividia em seis capítulos, é mais uma jornada fascinante de Bergman à intimidade de seus personagens. Se no épico que eu vi ontem era na exploração da infância, aqui é na situação conjugal.

É o terceiro filme que eu vi de Bergman esse ano e é a terceira prova de que este é, ao lado de Andrei Tarkovsky e Alfred Hitchcock, o maior diretor do século passado. É incrível como ele consegue mergulhar a fundo em seus personagens e explorar sentimentos tão íntimos. A trajetória que narra dez anos na vida de Marianne e Johan como casal através do matrimônio, das intrigas, da infidelidade, da separação e da parceria, é um épico intimista sobre relações. Sobre os limites do amor, da paixão e da instituição. Bergman é conhecido por propor, e responder, perguntas difíceis. Talvez aqui seja onde ele entrega as mais afiadas questões — e não hesita em dar sua opinião de resposta.

Mantido com atuações impecáveis e uma fotografia baseada quase que exclusivamente em close-upsCenas de um Casamento têm muitas semelhanças com o seu contemporâneo e bem menos conhecido Uma Mulher Sob Influência, e ambos são inspirações visíveis para Antes da Meia-Noite. Talvez por ter visto esses dois filmes antes da grandiosa obra-de-arte de Bergman, o efeito do filme não foi tão satisfatório quanto eu planejava. Não que o filme não é excelente: ele é magnífico. Ingmar Bergman era um diretor de exímia qualidade narrativa, mas que enriquecia cada plano de seus filmes com uma profundidade nos rostos de seus personagens, permitindo que o espectador divague sobre as consciências daquelas figuras, que a jornada simplesmente transcendia o simples storytelling, mas provavelmente seja porque eu prefiro as obras mais enxutas e contidas de Cassavetes e Linklater — o que não diminui em nada mais uma das excepcionais obras-de-arte do melhor diretor que já existiu.

  • Prós: a força com que Bergman nos empurra para dentro da película com sua narrativa sempre impecável e uma profundidade visual que nos permite mergulhar em cada frame; as atuações nada menos que impecáveis de  Liv Ullmann e Erland Josephson;
  • Contras: eu esperava uma mistura de Fanny & Alexander com Antes da Meia-Noite. Não obtive — mas isso não significa que o que foi entregue não é tão bom.
  • Veredicto: em mais um filme magnífico, Bergman prova ser um dos diretores com a maior capacidade de contar histórias ao mesmo tempo que faz com que os poros de seus personagens exalem sentimentos e pensamentos que dominam a mente do espectador. Cenas de um Casamento é mais um épico intimista de Bergman, talvez não tão excepcional quanto Fanny & Alexander, mas nada menos que estupendo e obrigatório para ser visto.

Cenas de um Casamento (Scener ur ett äktenskap, 1973). Suécia. Escrito e dirigido por Ingmar Bergman; fotografado por Sven Nykvist; editado por Siv Lundgren; com Liv Ullmann, Erland Josephson, Bibi Andersson, Jan Malmsjö, Gunnel Lindblom, Wenche Foss, Anita Wall, Barbro Hiort af Ornäs.

Fanny & Alexander (Fanny och Alexander, 1983)

Existem duas versões de Fanny & Alexander: a versão para TV, com mais de cinco horas de duração (e, por isso, dividida em vários capítulos); e a versão para o cinema,  com três horas. Eu optei assistir a versão original e aguentar as cinco horas no que Bergman considera o resultado de toda a sua vida como realizador.

E, bem, Fanny & Alexander é muito provavelmente um dos mais fascinantes que tive o prazer de assistir. Após ter lido sua autobiografia, Lanterna Mágica, é impossível não traçar paralelos entre a saga de Alexander e a do jovem Ingmar. Desde o primeiro quadro, em que vemos Alexander pelo seu teatro de fantoches, percebemos que estamos presenciando o mundo dele. Esse é o único filme dele que eu vi que ele dá atenção às crianças — raramente sequer vemos elas em seus filmes —, mas os reflexos de sua criação sempre foram bastante visíveis. Finalmente, em Fanny & Alexander, podemos ver esse período de sua vida como centro.

É uma inspiração direta, e talvez Bergman seja o diretor que mais teve coragem em explorar seu passado para enriquecer um trabalho autoral como esse. Diferente de A Árvore da VidaO Espelho, ele não busca impressões do agora sobre o antes. Ele quer apenas voltar àquele tempo, rever o mundo nos olhos do seu Alexander, e como esse jovem se via fascinado pelo teatro e pelo cinema. Fanny & Alexander nunca é um experimento. Bergman não precisava mais experimentar, seu conhecimento de cinema estava em sua plenitude. Tudo o que vemos aqui é um aperfeiçoamento máximo — muito provavelmente seu mais poderoso trabalho com imagens. Tudo para traçar um paralelo entre o teatro e sua vida, como ambos são fundamentais para ele, como sua infância o guiaria até o fim de seus dias, e como ele a assiste, muito tempo depois, com curiosidade e prazer.

  • Prós: Fanny & Alexander é o canto de cisne do maior diretor de cinema de todos os tempos.
  • Contras: nenhum.
  • Veredicto: perceber um realizador como Ingmar Bergman explorar sua infância, entrar no mundo de uma criança, para tirar dali aquilo que lhe formou como homem, diretor e cineasta, que regeu o resto de sua vida, é como ver uma escultura ganhar vida. Só isso já o tornaria em uma das mais impressionantes obras que o cinema já fez. Ela se transforma na obra máxima do maior diretor de cinema quando ele encontra, nessa jornada, o mágico e o real — e os entrelaça como uma criança faria.

Fanny & Alexander (Fanny och Alexander, 1983). Suécia. Escrito e dirigido por Ingmar Bergman; fotografado por Sven Nykvist; editado por Sylvia Ingemarsson; trilha-sonora composta por Daniel Bell; com Pernilla Allwin, Bertil Guve, Börje Ahlstedt, Allan Edwall, Ewa Fröling, Gunn Wållgren, Jarl Kulle, Jan Malmsjö, Christina Schollin, Kerstin Tidelius, Emelie Werkö, Marianne Aminoff, Sonya Hedenbratt, Svea Holst, Kristina Adolphson, Kristian Almgren, Carl Billquist, Axel Düberg, Siv Ericks, Patricia Gélin, Majlis Granlund, Maria Granlund, Eva von Hanno, Olle Hilding, Käbi Laretei, Mona Malm, Lena Olin, Gösta Prüzelius, Hans Strååt, Pernilla August, Inga Ålenius, Harriet Andersson, Mona Andersson, Hans Henrik Lerfeldt, Marianne Nielsen, Marrit Ohlsson, Gunnar Björnstrand, Nils Brandt, Lars-Owe Carlberg, Gus Dahlström, Ernst Günther Jr., Hugo Hasslo, Heinz Hopf, Maud Hyttenberg, Sven-Erik Jacobsson, Marianne Karlbeck, Kerstin Karte, Tore Karte, Åke Lagergren, Sune Mangs, Per Mattsson, Lickå Sjöman, Ryno Wallin, Georg Årlin, Daniel Bell, Gunnar Djerf, Folke Eng, Ebbe Eng, Evert Hallmarken, Nils Kyndel, Ulf Lagerwall, Börje Mårelius, Karl Nilheim, Erland Josephson, Stina Ekblad, Mats Bergman, Viola Aberlé, Gerd Andersson, Ann-Louise Bergström.

Short Term 12 (2013)

Eu não vi o filme anterior de Destin Cretton, I’m not a hipster, mas eu tenho a impressão que Short Term 12 é um impulso vindo desse filme. Não há nenhum floreio aqui, beleza no diferente. De fato, não há espaço para os personagens de Short Term 12 se catalogarem. Eles são o que precisam ser.

E talvez essa impressão seja o tiro certeiro em Short Term 12, um filme independente que foge do clima cool, descolado e falso da maioria dos filmes do cinema independente americano. Não há história mal contada aqui, nem mal filmada “para dar um ar de new age”. Não. Cretton é um diretor independente que sabe o que faz um bom filme ser um bom filme. Ele flui uma história baseada totalmente na personagem principal. A atenção é toda para ela. Há um cuidado, desde a primeira cena, de situar o espectador e envolvê-lo no que ele verá durante todo o filme.

E o que vemos — uma jovem assistente em uma “casa para crianças em perigo” que, na chegada de uma criança específica, começa a perceber os reflexos de sua própria infância problemática e tem problemas para conciliar sua vida pessoal da profissional — é um conto de interações humanas. Grace é uma personagem que leva o filme nas costas e Cretton consegue moldar toda a narrativa em volta dela sem a necessidade de causar pena. Tudo é muito orgânico em Short Term 12, todos os personagens se relacionam com um envolvimento impecável. A tensão que o filme gera em torno de Grace é nada mais que a tensão que ela tem consigo mesma. É de um talento notável que um filme capte a situação de sua personagem principal e a emule no filme. Você acompanha Grace de perto, você sente com ela. Short Term 12 é rígido com Grace não porque precisa sufocá-la para que o espectador sinta pena dela. Ele é rígido porque Grace é rígida consigo mesma. Ao tentar ignorar seus problemas na infância, é inevitável que ela prenda ela mesma.

  • Prós: o modo orgânico com que o filme flui, sendo sincero em suas situações e personagens — algo extremamente raro no cinema independente americano; as atuações, principalmente de Brie Larson. Cratton joga os filmes nos braços dela e ela agarra com força.
  • Contras: não há imperfeição em Short Term 12, ele é um dos grandes filmes jamais lançados no Brasil.
  • Veredicto: Short Term 12 é uma das gratas surpresas que tive esse ano. Um filme enérgico e empolgante, moldado todo em volta de uma personagem fascinante. Uma obra de um diretor novato em como ele quer fazer cinema. Não há lugar para hipsters em filmes assim — onde o personagem não tem chance de escolher um diferencial. Ele precisa aprender a sobreviver consigo mesmo.

Short Term 12 (2013). Estados Unidos. Escrito e dirigido por Destin Cretton; fotografado por Brett Pawlak; editado por Nat Sanders; trilha-sonora composta por Joel P. West; com Brie Larson, John Gallagher Jr., Kaitlyn Dever, Stephanie Beatriz, Rami Malek, Alex Calloway, Kevin Hernandez, Lydia Du Veaux, Keith Stanfield.

Ela (Her, 2013)

Esse ano eu descobri que tenho um apreço especial pelos filmes de Spike Jonze. Eu nunca havia percebido que ele é o diretor de filmes que eu realmente adoro: Quero Ser John Malkovich, uma experiência cinematográfica deliciosa; Scenes from The Suburbs, um dos curta-metragens mais sensacionais que eu já vi; e Onde Vivem Os Monstros, um dos meus filmes favoritos. Com Ela, esse ano, ele não só confirma sua qualidade como diretor. Aqui ele vai além.

Em Ela conhecemos Theodore Twombly, um sujeito que é escritor de “cartas à mão”, que compõe cartas para pessoas que ou não têm tempo para escrever, ou não possuem uma boa articulação em expressar seus sentimentos. Ele acabou de se divorciar de Catherine, então não está exatamente pronto para começar um novo romance, mas a voz de Samantha é difícil de resistir. O diferencial: Samantha é um sistema operacional criado através das preferências pessoais de Theodore.

Há um belo terreno aqui para criar uma comédia romântica como as muitas que existem por aí. Não haveria problema algum se Ela seguisse esse caminho, mas Jonze prefere algo um pouco mais difícil. Ele mergulha nesse mundo (magnífico) que ele criou. Ele entende o lado cômico desse relacionamento, e não tem medo de mostrá-lo. Jonze mistura a comédia e o drama como Kaufman, o roteirista de Quero ser John MalkovichAdaptação. Porém ele é mais charmoso, mais leve, ele brinca mais com a situação. Mas nunca deixa de levar aquilo a sério, afinal há um bom tema a ser tratado aqui. Theodore se apaixona pelo seu melhor lado, uma vez que Samantha é um reflexo de Theodore e daquilo que ele tenta mostrar aos outros. Ela é uma extensão e um complemento dele mesmo.

É nesse ponto que Ela vive. No meio de um drama bastante denso (isso não é um relacionamento de verdade?) com o cômico. E é tudo tratado com uma leveza fascinante. O futuro de Ela é bastante otimista, onde a raça humana parece estar resolvida com grande parte de seus problemas que nos afetam hoje. Spike Jonze não busca criticar algo aqui, porque em Ela não há um julgamento. Há uma dúvida. O quão mais estranho é um homem se apaixonar por um sistema operacional que o entende, que conversa e que o diverte? Quando Samantha, em determinado ponto do filme, responde a Theodore como ela vai, ela é uma mulher real. Ela dá uma resposta como qualquer mulher daria. É um momento importante, quando percebemos que Samantha se tornou tão real para nós quanto para Theodore. Em uma época que passamos mais tempo com nossos celulares do que com outras pessoas, não é difícil de imaginar que um dia possamos sentir que eles, também, são nossos companheiros.

  • Prós: as atuações nada menos que sensacionais, de tão puras, de Joaquin Phoenix, Rooney Mara e Amy Adams; a vida fascinante que Scarlett Johansson dá à sua Samantha, que se torna um personagem tão importante quanto os de carne-e-osso do filme; e a direção suave e implacável de Jonze, um dos melhores diretores americanos da atualidade.
  • Contras: absolutamente nenhum. Ela é impecável.
  • Veredicto: Ela busca algumas questões interessantes, não só sobre o amor, mas com a vida como um todo. Como é esse amor que se cria dentro de nós? Como reagimos ao reflexo de nossas próprias memórias? Quão mais estranho é um homem apaixonado por uma máquina quanto uma clínica de esquecimento? Ela pode não se importar em responder (mas o faz em um devastador plano final), porque está ocupado demais intrigado e fascinando por um romance que só o cinema nos daria. Ela é o melhor filme que eu vi esse ano, sem tirar nem pôr. É um conto fascinante de para onde caminha a humanidade, mas sem ser alarmante. É, ao contrário, apaixonado.

Ela (Her, 2013). Estados Unidos. Escrito e dirigido por Spike Jonze; fotografado por Hoyte Van Hoytema; trilha-sonora composta por Arcade Fire, Karen O.; com Joaquin Phoenix, Amy Adams, Rooney Mara, Olivia Wilde, Scarlett Johansson, Chris Pratt, Sam Jaeger, Portia Doubleday.

Azul é a cor mais quente (La Vie d’Adèle : Chapitre 1 et 2, 2013)

Alguns podem achar as três horas de duração de Azul é a cor mais quente um exagero. Não podem negar, porém, que Abdellatif Kechiche usa todos os minutos de seu filme com louvor. É de se surpreender que, dessas três horas, cerca de 80% da projeção se faz no close do rosto da atriz Adèle Exarchopoulus, em uma das melhores interpretações vistas no cinema esse ano. Kechiche é claro na sua mensagem: Azul é a cor mais quente é sobre Adèle. Nada mais.

Há muitas semelhanças com Weekend, de Andrew Haigh, aqui. Ambos possuem um tom naturalista e o que menos interessa para o filme é o preconceito com a relação homossexual ou os problemas de sair do armário. Tanto o filme francês quanto o inglês passam por esses pontos levemente, mas o que interessa é representar o amor, afinal. Não importa o gênero das partes. E isso é louvável. Azul é a cor mais quente nunca parece ser político como a graphic novel que o baseia as vezes soa.

De fato, Azul é a cor mais quente é uma adaptação quase literal da HQ. À exceção do final (que, ao que me parece, ficará para os capítulos 3 e 4), a jornada de Adèle é quase a mesma de Clémentine. Ela experimenta sair com um garoto, mas falta algo. Ela pensa que o problema é com ela. Até que descobre Emma, uma artista com cabelos azuis. E é com ela que Adèle descobre o amor, a paixão e o sexo. Azul é a cor mais quente atravessa os anos dessa relação de maneira quase imperceptível, o que dá ainda mais força para os choques temporais: quando você percebe, o relacionamento já está se desintegrando, ou Adèle já é professora…

Durante essas três horas, Azul é a cor mais quente percorre um ciclo de relacionamento completo entre Adèle e Emma. Todo o crédito fica para Exarchopoulos e Seydoux, que interpretam com força (quase cansaço) os altos e baixos de um relacionamento movido pela paixão irrefreável de suas partes. Se as cenas são fortes por si só, é no conjunto que Azul é a cor mais quente se destaca. Kechiche se interessa por exibir o que a Adèle lê, como ela dorme, como ela transa, o som que ela faz ao mastigar de boca aberta, ou o seu suor no sexo. Durante todo o filme, você se sente dentro da pele da personagem. Você sente o calor de seu corpo, como se fosse seu. Nem mesmo um épico da Terra-Média é maior que isso.

  • Prós: o tratamento naturalista de Kechiche sobre os corpos de suas personagens, suas personalidades e seus sentimentos; as interpretações já canônicas de Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux.
  • Contras: nenhum.
  • Veredicto: é mais que sexualmente explícito. Azul é a cor mais quente é emocionalmente explícito. Conseguir colocar em imagens sensações tão fortes é um mérito que poucos filmes alcançam. Azul é a cor mais quente não só alcança, como abraça essa jornada com força.

Azul é a cor mais quente (La Vie d’Adèle : Chapitre 1 et 2, 2013). França. Dirigido por Abdellatif Kechiche; escrito por Abdellatif Kechiche, Ghalya Lacroix, baseado na graphic novel “Le bleu est une couleur chaude” de Julie Maroh; fotografado por Sofian El Fani; editado por Albertine Lastera, Camille Toubkis, Jean-Marie Lengelle, Ghalya Lacroix; com Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux, Salim Kéchiouche, Mona Walravens, Jérémie Laheurte, Alma Jodorowsky, Aurélien Recoing, Catherine Salée, Fanny Maurin, Benjamin Siksou, Sandor Funtek, Karim Saidi, Baya Rehaz, Aurelie Lemanceau, Anne Loiret, Benoît Pilot, Samir Bella.

Toda Forma de Amor (Beginners, 2010)

Existem duas linhas temporais ocorrendo em Toda Forma de Amor: uma do pai de Oliver, que após a morte da esposa decide fazer dois anúncios: uma é que ele está morrendo de câncer, a outra é que ele, na verdade, é gay; a segunda timeline fala de Oliver em si, e como ele faz para superar a morte do pai ao mesmo tempo que absorve que, depois de décadas em um casamento feliz, finalmente seu pai teve a chance de viver com honestidade.

É interessante seguir uma história em dois pontos específicos simultaneamente. A mais óbvia característica é que podemos traçar paralelos quanto a reação de Oliver em ambas as situações, e como as descobertas sobre seu pai e sua namorada o ajudam a entender a si mesmo.

Óbvio, nenhum tema é muito novo. Toda Forma de Amor fala sobre pessoas se auto-compreendendo independentemente de idade ou saúde, conceitos ou opiniões alheias. É um estudo de personagem, que foge do lugar-comum do cinema independente americano ao não criar situações estranhas ou criar arquétipos distintos. Toda Forma de Amor é o que é: uma história simples sobre pessoas que, olha só, se descobrem.

  • Prós: as excelentes atuações de Ewan McGregor, Mélanie Laurent e, claro, do excepcional Christopher Plummer; a forma inspirada com que Mills dirige o filme;
  • Contras: é um filme que, embora faça bem em não inovar em nada, também não luta para fugir de um lugar comum em estudo de personagens. Você já viu várias coisas parecidas com Toda Forma de Amor.
  • Veredicto: embora bastante parecido com qualquer outro filme do tema, Toda Forma de Amor tem, a seu favor, uma abordagem muitíssimo bem pensada e atores excelentes em papéis a sua altura. Só isso já é um bom motivo para ver, se você precisa de mais um, saiba que o filme traz personagens tão deliciosos que você gostaria de assistí-los a vida inteira.

Toda Forma de Amor (Beginners, 2010). Estados Unidos. Escrito e dirigido por Mike Mills; fotografado por Kasper Tuxen; editado por Olivier Bugge Coutté; com Ewan McGregor, Christopher Plummer, Mélanie Laurent, Goran Višnjić, Ming Kai Leung, Mary Page Keller, Keegan Boos, China Shavers, Lou Taylor Pucci, Melissa Tang, Luke Diliberto.