365 dias em 365 filmes

Cena de Meu Amigo Totoro (となりのトトロ — Tonari No Totoro, 1988)

Eu devia ter feito esse post no dia primeiro, mas a semana foi tão corrida que, perdoem-me, só pude postar hoje. Já fazem quatro dias do ano novo e, como vocês podem ver, o projeto de ver um filme diferente a cada dia durante um ano foi concluído.

Quando eu fiz meus planos de ver um filme diferente por dia, ainda em dezembro de 2012, eu não tinha pensado em começar um blog (na verdade, a ideia do blog veio só no meio de fevereiro, o que me fez escrever vários posts madrugada a dentro pra dar conta dos filmes que eu tinha visto antes). Eu estava fazendo um log de todos os filmes no MUBI, mas percebi que o banco de dados de filmes deles ultimamente está deixando a desejar, então parti pro Letterboxd, onde eu posso indicar como e quando eu vi o filme. Mas eu lembrei que eu adorava fazer posts no Pão com Mortadela com filmes que eu gostava de ver e, durante o hiato do site meu e do Fillipe, eu vi que nascia aí a oportunidade de desenvolver as ideias que os filmes me passavam através de pequenas notas aleatórias. Daí, sim, eu precisava criar o blog.

E foi ótimo, principalmente porque é muito mais perceptível o quanto tu evolui um filme ao dissecá-lo, mesmo que pra si mesmo. Muitos filmes ficaram melhores depois que eu comecei o que eu poderia escrever no post, o que eu tinha absorvido da experiência. Outros, foi a reação que o post teve, como em Precisamos falar sobre o Kevin, onde eu e a Manu discutimos as diferenças cruciais entre o livro e o filme, que tornam a experiência de assistir ainda mais deliciosa.

Muitos filmes faltaram, eu admito. Nesses 365 dias de filmes eu queria ter planejado melhor quais eu veria e quando. Ocorreu de eu ter que assistir, muitas vezes, coisas aleatórias na Netflix ou na HBO, porque eu tinha esquecido de alugar ou comprar os filmes da semana, e por isso muitos filmes do Bergman, Rohmer, Truffaut, Godard, Trier, Scorsese e Hitchcock não entraram na lista. Outros, como E.T., foram perpetuamente adiados pra um dia melhor e acabaram não levando a chance, o que me deixou chateado comigo mesmo. No geral, porém, eu acho que foi tudo muito bom. Eu finalmente consegui desenvolver um gosto por um tipo de cinema específico (que você pode facilmente perceber ao ver a lista completa de filmes), descobri diretores que há tempos eu estava interessado em explorar, comprovei um ou outro novos favoritos e, principalmente, conheci muito, mas muito filme bom.

E a isso eu devo agradecer a quem me ajudou e participou. À Manu, que sempre tinha uma consideração sobre um filme que ela viu ou queria ver — o que sempre acaba me ajudando a desenvolver os meus próprios argumentos; à Ana e a Thiana, que me forneceram um acervo de obras fantásticas e me indicaram as obras-primas de Tarkovsky, já um dos meus diretores favoritos; ao Seu Felipe, que tem uma coleção de filmes invejável e que eu pude usufruir nos melhores posts do blog; ao Zé, que nunca errou numa recomendação sequer e sempre arranjou um tempo pra discutir cinema comigo, a hora que fosse; e também à Vitrine Filmes, Diamond Films, Imovision e Warner Bros., que me concederam ingressos de cabine pros filmes O Som Ao Redor (a Vitrine me deu, inclusive, uma cópia em 1080p no iTunes), Antes da Meia-Noite (a Diamond me deu um pôster em tamanho gigante do filme, também), Tabu e Gravidade (em IMAX, te amo WB).

Enfim, foi ótimo. Se 2013 foi um ano complicado, todos esses filmes que me acompanharam fizeram valer o custo (eu gastei muito em ingressos, DVDs e blu-rays) e o tempo gastos. Foi uma experiência muito bacana que, agora, entrando na faculdade de Cinema, eu acho que vai me enriquecer ainda mais.

Como não podia deixar de ser, esse post de finalização tem, também, algumas listinhas de melhores e piores do ano.

Melhores filmes vistos no cinema

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1. Ela / Antes da Meia-Noite

Eu não consegui escolher entre Ela e Antes da meia-noite. Ambos me ofereceram experiências parecidas ao assistir, e ainda assim únicas.

O romance de Spike Jonze me ofereceu uma sensação de alegria e esperança que nenhum filme esse ano me passou — um feito mágico ao retratar um futuro assustador, mas fascinante. É uma obra bastante simples de um homem que se apaixona por uma máquina, mas que abre questões incríveis sobre como interagimos hoje, em que passamos mais tempo nos comunicando com a Siri do iPhone do que com nossos amigos. Claro, essa é apenas a mais leve das interpretações do tema do filme, mas ele realmente se destaca pelo seu tratamento deliciosamente lúdico e agridoce em trazer um personagem que carrega consigo tamanha tristeza, mas sem nunca se transformar em um filme deprimente. Ao contrário.

Já o terceiro capítulo da saga romântica de Richard Linklater finalmente olha pro presente. Se em Antes do Amanhecer Jesse e Celine exploravam seus sonhos pro que lhes aguardava; e em Antes do Pôr-do-Sol o casal via o tempo gasto sem estarem juntos nos nove anos que os separavam; aqui em Antes da Meia-Noite eles finalmente tratam do agora, em um dos filmes mais bem estruturados que eu já vi. Composto de pequenos atos em tempo-real durante um dia, Jesse e Celine discutem as contas, os trabalhos, os filhos e, ao final, onde eles estão agora como um casal. Seria uma experiência deprimente se fossem apenas um pai e uma mãe brigando na tela, mas vai muito além disso: são dois velhos amigos do espectador finalmente alcançando o que tanto esperamos — a real intimidade. É muito mais realista e sério que os filmes anteriores, mas é uma jornada que vale muito a pena acompanhar.

E também:

2. Tabu: o filme de Miguel Gomes é o tributo mais apaixonado já feito do cinema por ele mesmo. Uma viagem mágica ao cinema mudo para relembrarmos da magia das imagens em movimento.

3. A Caça: um drama assustador de até onde vai a humanidade das pessoas, Vinterberg cria aqui um tenso conto que, a todo o instante, me deixou na ponta da poltrona.

4. Frances Ha: não tive esse ano uma aproximação tão grande quanto a que tive com Frances. Em uma comédia deliciosa, Frances exibe toda a sua tristeza interior (em uma das sequências mais mágicas que eu vi) quando percebe que os sonhos que carregava não podiam ser alcançados.

5. Gravidade: fale o que quiser dos problemas narrativos do filme de Afonso Cuarón, não teve em 2013 uma experiência tão magnífica no cinema do que assistir o desesperador conto de renascimento da dra. Stone no vazio do espaço.

Melhores filmes vistos em casa

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1. Uma mulher sob influência

O filme de John Cassavetes abriu meus olhos pro que eu realmente amo no cinema: os personagens. E Uma mulher sob influência é apenas personagens e uma câmera.

Cassavetes filma Mabel com a câmera vidrada em seu rosto, não dá pra tirar. Uma mulher sob influência documenta como as guerras iniciam: quando uma pessoa não pode aceitar o modo de vida de outra. E Mabel, coitada, não é aceita com todo o afeto que tem pra dar, todo o amor que sente pelo marido e que ela não consegue uma resposta. É triste perceber como ela tenta ao máximo ser o suporte necessário, ser a mãe confiável, a esposa exemplar. E como isso pesa nas suas costas. Ela carrega o peso do mundo com ela, e você sente tudo porque Cassavetes a filma de uma maneira tão peculiar, como se você estivesse sob a pele dela, sentindo as texturas que ela sente, o peso da cabeça que ela também sente. É uma pequena odisseia sobre o conflito familiar, mas não aquele que travamos com os outros em casa: aquele que travamos com nós mesmos.

E também:

2. Zodíaco: não teve filme que eu vi mais esse ano que Zodíaco, e parece que não vi um número suficiente de vezes.

3. O Sacrifício: a despedida de Andrei Tarkovsky é exatamente aquilo que seu cinema representou: o delírio fascinante de um homem que precisava externar seus medos e seus sonhos — e que resultou, ao final, na mais fascinante carta de despedida do cinema.

4. Fanny & Alexander: o épico da infância de Bergman é uma daquelas experiências íntimas que você não pode deixar de rever seu próprio passado. E, aqui, de explorar como ela influenciou o teatro e o cinema do maior diretor de todos os tempos.

5. Terra de Ninguém: eu vivo pra assistir obras como a estréia de Terrence Malick.

Melhores surpresas

Cena de Weekend (2011)

1. Weekend

O filme de estréia de Andrew Haigh é uma das obras cinematográficas mais intimistas que eu já vi. Um trabalho excepcional de desenvolvimento de personagens em meio a discussões sobre sexualidade e relacionamentos em um dos filmes mais contemporâneos que o cinema contemporâneo conseguiu nos trazer.

A intimidade com que Weekend nos leva para dentro dele é imensa. Vemos o pequeno flat de Russell e como, em dois dias, ele e Glen descobrem a si mesmos mais do que nunca. Uma obra excepcional e de uma sensibilidade que raramente se vê no cinema. E fica ainda melhor se você assistir os comentários do diretor no blu-ray da Criterion.

E também:

2. Frances Ha: eu não esperava me aproximar tanto do que Frances sentia e mentia nesse pequeno conto.

3. Martha Marcy May Marlene: impossível você não ficar duas horas parado olhando para a tela da TV depois daquele horripilante plano final.

4. Stalker: eu acho que esse é o mais fascinante filme que eu já vi.

5. Tabu: eu pensando que era uma daquelas obras autorais insuportáveis, mas na verdade é uma (belíssima) canção de amor ao cinema.

Piores filmes:

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1. Projeto X — Uma festa fora de controle: me estraga só em lembrar que eu vi uma coisa dessas.

2. O Conselheiro do Crime: o que houve, Ridley Scott?!

3. Truque de Mestre: queime antes que se prolifere.

4. A Viagem: os irmãos Wachowski comprovam que quando se trata de cinema eles são ótimos em não fazer nada direito.

5. Moulin Rouge! Amor em vermelho: só pra me lembrar o porquê de eu odiar musicais.

Melhores filmes:

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1. Uma mulher sob influência

Uma mulher sob influência me mostrou o que realmente é significativo na hora de fazer e ver um filme: conseguir sentir o que o personagem está sentindo. E ele faz isso como nenhum outro filme que vi nesse ano. É uma obra poderosa sobre como, e porque, o cinema existe e funciona, e o exemplo definitivo de que não há como expressar sentimentos na arte de maneira mais profunda que um intérprete, um operador de câmera e um exímio diretor.

E também:

2. Antes da meia-noite: porque o cinema é feito de pessoas — e assistir as duas pessoas mais fascinantes do cinema evoluindo o que elas já haviam desenvolvido no passado é a coisa mais incrível de se ver.

3. Tabu: a narração do segundo ato é a mais linda e poderosa escolha narrativa que eu já vi.

4. O Sacrifício: Tarkovsky monta o mais incrível cenário — se o fim do mundo está anunciado e próximo, o que podemos fazer para evitá-lo?

5. Zodíaco: não há exemplo melhor de perfeição cinematográfica.


É isso pessoal. Em 2014 eu não vou continuar a ideia de ver um filme diferente por dia, até porque eu preciso me organizar pra faculdade e duvido que tenha o mesmo pique do ano passado, um ano de férias prolongadas. Mas eu continuo vendo muitos filmes, então você pode acompanhar no Letterboxd quais filmes eu vi e o que eu achei deles. Eu e o Fillipe voltaremos pro Pão com Mortadela em março, onde eu continuarei comentando sobre filmes, além de você poder falar comigo e ler qualquer coisa que eu escrevo no Twitter.

Não digo que eu nunca mais vá atualizar esse blog. Ele ficará aqui, para um provável ano que eu me dedique a fazer essa jornada de novo. Se ela vai acontecer, e quando, eu não posso confirmar. Mas né, não custa deixar no ar.

Até mais.

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Autor: Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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