Assim como em Fanny & Alexander, decidi embarcar na versão definitiva de Cenas de um Casamento. A versão com quase cinco horas, dividia em seis capítulos, é mais uma jornada fascinante de Bergman à intimidade de seus personagens. Se no épico que eu vi ontem era na exploração da infância, aqui é na situação conjugal.

É o terceiro filme que eu vi de Bergman esse ano e é a terceira prova de que este é, ao lado de Andrei Tarkovsky e Alfred Hitchcock, o maior diretor do século passado. É incrível como ele consegue mergulhar a fundo em seus personagens e explorar sentimentos tão íntimos. A trajetória que narra dez anos na vida de Marianne e Johan como casal através do matrimônio, das intrigas, da infidelidade, da separação e da parceria, é um épico intimista sobre relações. Sobre os limites do amor, da paixão e da instituição. Bergman é conhecido por propor, e responder, perguntas difíceis. Talvez aqui seja onde ele entrega as mais afiadas questões — e não hesita em dar sua opinião de resposta.

Mantido com atuações impecáveis e uma fotografia baseada quase que exclusivamente em close-upsCenas de um Casamento têm muitas semelhanças com o seu contemporâneo e bem menos conhecido Uma Mulher Sob Influência, e ambos são inspirações visíveis para Antes da Meia-Noite. Talvez por ter visto esses dois filmes antes da grandiosa obra-de-arte de Bergman, o efeito do filme não foi tão satisfatório quanto eu planejava. Não que o filme não é excelente: ele é magnífico. Ingmar Bergman era um diretor de exímia qualidade narrativa, mas que enriquecia cada plano de seus filmes com uma profundidade nos rostos de seus personagens, permitindo que o espectador divague sobre as consciências daquelas figuras, que a jornada simplesmente transcendia o simples storytelling, mas provavelmente seja porque eu prefiro as obras mais enxutas e contidas de Cassavetes e Linklater — o que não diminui em nada mais uma das excepcionais obras-de-arte do melhor diretor que já existiu.

  • Prós: a força com que Bergman nos empurra para dentro da película com sua narrativa sempre impecável e uma profundidade visual que nos permite mergulhar em cada frame; as atuações nada menos que impecáveis de  Liv Ullmann e Erland Josephson;
  • Contras: eu esperava uma mistura de Fanny & Alexander com Antes da Meia-Noite. Não obtive — mas isso não significa que o que foi entregue não é tão bom.
  • Veredicto: em mais um filme magnífico, Bergman prova ser um dos diretores com a maior capacidade de contar histórias ao mesmo tempo que faz com que os poros de seus personagens exalem sentimentos e pensamentos que dominam a mente do espectador. Cenas de um Casamento é mais um épico intimista de Bergman, talvez não tão excepcional quanto Fanny & Alexander, mas nada menos que estupendo e obrigatório para ser visto.

Cenas de um Casamento (Scener ur ett äktenskap, 1973). Suécia. Escrito e dirigido por Ingmar Bergman; fotografado por Sven Nykvist; editado por Siv Lundgren; com Liv Ullmann, Erland Josephson, Bibi Andersson, Jan Malmsjö, Gunnel Lindblom, Wenche Foss, Anita Wall, Barbro Hiort af Ornäs.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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