Ela (Her, 2013)

Esse ano eu descobri que tenho um apreço especial pelos filmes de Spike Jonze. Eu nunca havia percebido que ele é o diretor de filmes que eu realmente adoro: Quero Ser John Malkovich, uma experiência cinematográfica deliciosa; Scenes from The Suburbs, um dos curta-metragens mais sensacionais que eu já vi; e Onde Vivem Os Monstros, um dos meus filmes favoritos. Com Ela, esse ano, ele não só confirma sua qualidade como diretor. Aqui ele vai além.

Em Ela conhecemos Theodore Twombly, um sujeito que é escritor de “cartas à mão”, que compõe cartas para pessoas que ou não têm tempo para escrever, ou não possuem uma boa articulação em expressar seus sentimentos. Ele acabou de se divorciar de Catherine, então não está exatamente pronto para começar um novo romance, mas a voz de Samantha é difícil de resistir. O diferencial: Samantha é um sistema operacional criado através das preferências pessoais de Theodore.

Há um belo terreno aqui para criar uma comédia romântica como as muitas que existem por aí. Não haveria problema algum se Ela seguisse esse caminho, mas Jonze prefere algo um pouco mais difícil. Ele mergulha nesse mundo (magnífico) que ele criou. Ele entende o lado cômico desse relacionamento, e não tem medo de mostrá-lo. Jonze mistura a comédia e o drama como Kaufman, o roteirista de Quero ser John MalkovichAdaptação. Porém ele é mais charmoso, mais leve, ele brinca mais com a situação. Mas nunca deixa de levar aquilo a sério, afinal há um bom tema a ser tratado aqui. Theodore se apaixona pelo seu melhor lado, uma vez que Samantha é um reflexo de Theodore e daquilo que ele tenta mostrar aos outros. Ela é uma extensão e um complemento dele mesmo.

É nesse ponto que Ela vive. No meio de um drama bastante denso (isso não é um relacionamento de verdade?) com o cômico. E é tudo tratado com uma leveza fascinante. O futuro de Ela é bastante otimista, onde a raça humana parece estar resolvida com grande parte de seus problemas que nos afetam hoje. Spike Jonze não busca criticar algo aqui, porque em Ela não há um julgamento. Há uma dúvida. O quão mais estranho é um homem se apaixonar por um sistema operacional que o entende, que conversa e que o diverte? Quando Samantha, em determinado ponto do filme, responde a Theodore como ela vai, ela é uma mulher real. Ela dá uma resposta como qualquer mulher daria. É um momento importante, quando percebemos que Samantha se tornou tão real para nós quanto para Theodore. Em uma época que passamos mais tempo com nossos celulares do que com outras pessoas, não é difícil de imaginar que um dia possamos sentir que eles, também, são nossos companheiros.

  • Prós: as atuações nada menos que sensacionais, de tão puras, de Joaquin Phoenix, Rooney Mara e Amy Adams; a vida fascinante que Scarlett Johansson dá à sua Samantha, que se torna um personagem tão importante quanto os de carne-e-osso do filme; e a direção suave e implacável de Jonze, um dos melhores diretores americanos da atualidade.
  • Contras: absolutamente nenhum. Ela é impecável.
  • Veredicto: Ela busca algumas questões interessantes, não só sobre o amor, mas com a vida como um todo. Como é esse amor que se cria dentro de nós? Como reagimos ao reflexo de nossas próprias memórias? Quão mais estranho é um homem apaixonado por uma máquina quanto uma clínica de esquecimento? Ela pode não se importar em responder (mas o faz em um devastador plano final), porque está ocupado demais intrigado e fascinando por um romance que só o cinema nos daria. Ela é o melhor filme que eu vi esse ano, sem tirar nem pôr. É um conto fascinante de para onde caminha a humanidade, mas sem ser alarmante. É, ao contrário, apaixonado.

Ela (Her, 2013). Estados Unidos. Escrito e dirigido por Spike Jonze; fotografado por Hoyte Van Hoytema; trilha-sonora composta por Arcade Fire, Karen O.; com Joaquin Phoenix, Amy Adams, Rooney Mara, Olivia Wilde, Scarlett Johansson, Chris Pratt, Sam Jaeger, Portia Doubleday.

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Autor: Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

2 comentários em “Ela (Her, 2013)”

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