Eu não sou o maior fã do cinema mudo. Não me leve a mal, eu nasci na década de noventa, então curtir a experiência quase inteiramente visual que é assistir Nosferatu nunca foi a minha praia. Mas tudo muda quando você assiste A Paixão de Joana D’Arc.

Feito quase que inteiramente com closes, a obra máxima de Carl Th. Dreyer talvez tenha sido a primeira prova de que sim, cinema é uma arte de expressão. Cada frame de A Paixão de Joana D’Arc parece um quadro, a expressão facial de Renée Falconetti tem aqui a força que o teatro nunca teria dado, e a poderosa edição — que você pode ver traços em filmes atuais — concatena as sequências de maneira soberba. Não há dúvida, depois de A Paixão de Joana D’Arc, que o cinema é arte.

Acho que cinema, sendo arte ou não, precisa buscar isso. Buscar a expressão. Diferente do teatro, o cinema não é o meio do ator, é o meio do diretor. E ver ele conseguir expressar suas ideias e sentimentos através da verdadeira alma gravada em película que é essa interpretação de Falconetti (considerada, com muita razão, a maior atuação já gravada em filme), é o maior feito que um diretor poderia alcançar. Mais que a retratação de um personagem histórico, A Paixão de Joana D’Arc abre essa caixa de segredos que é a alma humana por simplesmente filmar os olhos de seus atores. É, sim, a obra mais expressiva de Dreyer, e talvez o filme mais importante da história do cinema. É, sem sombra de dúvidas, uma obra de arte.

  • Prós: a expressividade do diretor dentro do filme, sem ser egocêntrico; a interpretação maravilhosa de Renée Falconetti, provavelmente a mais poderosa e sincera atuação que eu já vi.
  • Contras: boa sorte procurando assistir esse filme em uma qualidade decente.
  • Veredicto: a versão lançada pela Criterion de A Paixão de Joana D’Arc talvez seja a ideal para se assistir o filme hoje: a restauração digital do filme é impecável e acompanha uma trilha-sonora operística baseada nos movimentos da obra. Não é uma revisitação, é como o maior expoente do cinema deve ser assistido hoje com a mesma força que teve há quase noventa anos. É um feito único utilizando a mais simples técnica do cinema. Uma grande obra feita com pouco.

A Paixão de Joana D’Arc (1928). França. Escrito e dirigido por Carl Theodor Dreyer; fotografado por Rudolph Maté; editado por Marguerite Beaugé, Carl Theodor Dreyer; com Renée Jeanne Falconetti, Eugène Silvain, André Berley, Maurice Schutz, Antonin Artaud, Gilbert Dalleu, Jean d’Yd, Louis Ravet.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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