Yasujiro Ozu é um grande diretor porque sabe como trabalhar e o quê trabalhar. É um diretor que ignora a virtuose visual em seu cinema, preferindo entregar uma narrativa calma e lenta. Isso é bom, principalmente aqui, porque entre as imagens simples e personagens de profunda dor, há muito o que ser observado. Em Era uma vez em Tóquio seu melhor filme em uma filmografia quase impecável, ele pega sua forma de filmar extritamente japonesa e a usa para criar uma das melhores realizações de um tema universal: o conflito de gerações.

A história de Era uma vez em Tóquio é tão econômica quanto sua linguagem. Um casal, já velho, decide visitar seus filhos na capital. Lá, eles percebem que os filhos não possuem mais tempo para eles e, na volta para o campo, visitam a viúva de um dos filhos mortos na guerra. É uma história mundana, sem muito floreio, e Ozu a deixa ainda mais polida ao remover dela qualquer ação desnecessária (ou até mesmo necessária). O que importa para Era uma vez em Tóquio não é como eles fizeram algo — até porque isso é irrelevante para a narrativa —, mas sim o porquê, e qual a reação de seus filhos quanto a algo dito ou feito.

Como em tantos outros grandes filmes, aqui a potência da narrativa se dá pelos personagens, em como sua reação se torna a ponte entre o espectador e a figura de quem está na tela. Quando Noriko percebe que a vida é desapontadora, você é quase convidado a ficar no lado dela. É um convite bastante formal de Ozu, mas seria deselegante negá-lo.

  • Prós: tudo. Desde a história bastante simples até os personagens repletos de amargura, Era uma vez em Tóquio é composto por elementos de soberba realização.
  • Contras: nenhum.
  • Veredicto: repleto de amargura e solidão, Era uma vez em Tóquio pode até mesmo ser melodramático. Mas o que seria da vida senão um melodrama sem melodia?

Era uma vez em Tóquio (_ Tôkyô monogatari_, 1953). Japão. Dirigido por Yasujirô Ozu; escrito por Kôgo Noda, Yasujirô Ozu; fotografado por Yûharu Atsuta; editado por Yoshiyasu Hamamura; trilha-sonora composta por Kojun Saitô; com Chishû Ryû, Chieko Higashiyama, Setsuko Hara, Haruko Sugimura, Sô Yamamura, Kyôko Kagawa, Kuniko Miyake, Eijirô Tôno, Nobuo Nakamura, Shirô Osaka, Hisao Toake, Teruko Nagaoka, Mutsuko Sakura, Toyo Takahashi.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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2 comentários

    1. Poxa Rodolfo, eu sei que “Era uma vez em Tóquio” está disponível para compra na Livraria da Folha em uma coleção de filmes do Ozu, que possuem o tema do conflito gerancional. É uma bela coleção: custa R$ 69,90 e todos os filmes que estão nela são excepcionais.

      Dá uma conferida lá.

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