Eu sou um grande fã do trabalho de Walter Salles. Como diretor, Salles tem uma dedicação em exibir seus personagens e suas histórias.

Terra Estrangeira é toda essa dedicação: Salles aqui mostra um carinho tão grande pelos seus personagens quanto mostraria mais tarde com Abril Despedaçado, o seu melhor filme. Paco e Alex são personas completas e desoladas, ambas buscando um lar. E a ideia de lar no cinema de Walter Salles, principalmente aqui, é sempre um lugar longe de casa — para Tonio era o mar, para Reginaldo (a excelente criança de Linha de Passe) era os ônibus. Para Paco e Alex, resta essa busca. Ele precisa sair de casa para encontrar, na desolação, a vida; ela, há muito fora de seu país, só quer um lugar que possa chamar de lar.

Terra Estrangeira flerta, então, com o drama, o thriller e o filme de estrada. O thriller aqui serve como o gancho de ação, a função de levar dois personagens a se juntarem, enquanto o drama cria a relação e o filme de estrada explora as personalidades. Salles usa com maestria as características desses gêneros para tirar de Terra Estrangeira não só uma crítica sociopolítica, mas também para entrelaçar as vidas desoladas de seus personagens sem precisar recorrer ao melodrama. A tristeza é presente pela belíssima fotografia em preto-e-branco, que muito lembra alguns célebres filmes de John Cassavetes (o modo como Salles aproxima a câmera, quase que indecentemente, no rosto de Fernanda Torres é outra homenagem) e numa trilha-sonora selecionada a dedo.

Todo o capricho e o cuidado de Terra Estrangeira exibe não só a qualidade de Salles como diretor; mas o carinho que ele tem com os personagens que, ele criou com tanta intensidade. Seu cinema pertence a eles.

  • Prós: a belíssima fotografia, trilha-sonora, e as atuações de Fernanda Torres e Fernando Alves Pinto; um roteiro que amadurece com seus personagens e que, na linha de transição, evolui cinematicamente.
  • Contras: o início do filme é, pra mim, excessivamente poético.
  • Veredicto: belíssimo e sensível, Terra Estrangeira é não uma mostra da qualidade de Salles como diretor: é uma carta de amor dele mesmo com seus personagens, aqui em uma história tão triste quanto magnífica. Eu espero que Alex e Paco encontrem seu lar.

Terra Estrangeira (1995). Brasil, Portugal. Escrito e dirigido por Walter Salles, Daniela Thomas; fotografado por Walter Carvalho; editado por Felipe Lacerda, Walter Salles; trilha-sonora composta por José Miguel Wisnik; com Fernando Alves Pinto, Tchéky Karyo, Fernanda Torres, João Lagarto.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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