Michael Haneke não possui rivais no cinema contemporâneo europeu. Na maneira como flagra, no cotidiano de famílias normais, uma fúria e uma violência reprimidas e quase inacessível, justamente no momento em que elas tendem a serem botadas pra fora, Haneke não possui qualquer diretor nessa geração que chegue em sua qualidade.

Em Caché, há um tom de tragédia anunciada. Mais do que em A Fita Branca, aqui essa tragédia parece a um passo de ocorrer e a repressão é interna. Não são os pais que reprimem as crianças no vilarejo pré-Guerra Mundial. Aqui são os próprios participantes da tortura que se automutilam.

Unindo ao suspense cruel de alguém vigiando uma casa de família de classe média-alta na Paris com um discurso sobre a diáspora social européia, ou como os antes colonialistas agora não só temem que os colonizados se levantem e se vinguem por magoas passadas, e também presentes, Caché ganha de nocaute pela tensão do não visto, o medo do personagem oculto e esse sentimento que não é expelido. É esse oculto do título, que sabe de um passado que não é passado, que mexe em feridas abertas, que não exibem sinais de cicatrização, e que torna nítido as fraquezas do contrato social européia, que exibe a manipulação da imagem como força de embate. Caché é um meta-filme, e um dos melhores de um mestre sem rival.

  • Prós: a cultura do não-visto que Haneke emprega em seus filmes recebe teores metalinguísticos em Caché, a tensão insuportável e impossível de refrear formada pela união de temas puramente cinematográficos com teores políticos fortes;
  • Contras: nenhum.
  • Veredicto: Caché é mais um dos excelentes filmes de Haneke. É, talvez, junto com Amor, meu favorito dele: um filme sobre um contrato social invisível e repressivo que, ao ser tocado, fica descontrolado.

Caché (2005). França, Áustria, Alemanha, Estados Unidos. Escrito e dirigido por Michael Haneke; fotografado por Christian Berger; editado por Michael Hudecek, Nadine Muse; com Daniel Auteuil, Juliette Binoche, Maurice Bénichou, Lester Makedonsky, Annie Girardot, Daniel Duval, Nathalie Richard, Denis Podalydès, Walid Afkir, Bernard Le Coq, Aïssa Maïga, Louis-Do de Lencquesaing, Marie Kremer.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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