Embora tecnicamente revolucionário e com indiscutível relevência histórica, Cidadão Kane nunca entraria em uma lista minha de filmes favoritos porque não me satisfaz emocionalmente. Embora ele tenha criado muitas das técnicas que eu adoro ver em filmes que estariam em uma lista dessas, o conjunto de Cidadão Kane não me dá muitas escolhas a não ser a de respeitá-lo. Isso acontece aos montes: 2001: Uma Odisséia no EspaçoLaranja Mecânica, Pulp Fiction e uma penca de filmes excelentes não me impressionam porque ou utilizam uma técnica muito simples de manipulação de emoção (a reviravolta desnecessária de Clube da Luta), ou não me emocionam de forma alguma.

A maior prova de que isso acontece é que A Marca da Maldade usa muitas, senão todas, técnicas provenientes do filme mais conhecido de Orson Welles, mas pra mim é um filme infinitamente superior. É justamente o motivo de A Marca da Maldade me satisfazer emocionalmente, de saber criar tensão e medo (afinal, é um noir), e de saber fazer isso muito bem que ele certamente figuraria na minha seleção de grandes filmes. É o filme que eu dou o crédito de Orson Welles ser o diretor do cacife que é, mesmo sem ter visto suas versões de OtelloMacbethF for Fake.

A Marca da Maldade é um filme noir cuidadosamente construído (digo isso porque já na primeira cena você vai babar) sobre assassinatos, sequestros e corrupção em uma fronteira estadunidense com o México. É um confronto dos poderes locais, e o tema já é bastante interessante para se sustentar sozinho, mas Welles une toda a sua parafernalha técnica para deixar a história muitíssimo bem contada. O plano sequência inicial só prepara o espectador pro que vai acontecer depois. A Marca da Maldade sobrevive à uma introdução fantástica e se coloca como um dos grandes filmes noir da história por mostrar, de forma mais poderosa que o plano sequência, uma história perversa de humanos perversos.

  • Prós: o exímio apuro técnico de Orson Welles com sua capacidade de contar uma história que, além de ter sido muito bem contada aqui, é incrível por si só.
  • Contras: nenhum.
  • Veredicto: pessoalmente, acho A Marca da Maldade um filme superior a Cidadão Kane. Mas ele nunca deve viver a sombra de um filme. A Marca da Maldade é uma obra que se sustenta de maneira tão singular, onde sua história é tão facinante e o modo como ela é nos contada é ainda mais impressionante, que tornam este um filme de imensa qualidade. É um grande filme.

A Marca da Maldade (Touch of Evil, 1958). Estados Unidos. Dirigido por Orson Welles; escrito por Orson Welles, Whit Masterson, Paul Monash, Franklin Coen; fotografado por Russell Metty; editado por Aaron Stell, Virgil W. Vogel, Edward Curtiss, Walter Murch; trilha-sonora composta por Henry Mancini; com Charlton Heston, Janet Leigh, Orson Welles, Marlene Dietrich, Joseph Calleia, Akim Tamiroff, Joanna Moore, Ray Collins, Dennis Weaver, Valentin de Vargas, Mort Mills, Victor Millan, Lalo Rios, Michael Sargent, Phil Harvey, Joi Lansing, Harry Shannon, Zsa Zsa Gábor.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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