A primeira regra para alguém que quer assistir a filmes que moldaram a história do cinema é assistir a Cidadão Kane. O motivo é simples: Cidadão Kane moldou o cinema que conhecemos até hoje.

Eu não sou fascinado pelo filme de estréia de Orson Welles, mas eu não preciso ser. A relevância histórica, a grande revolução que é Cidadão Kane é acima de um gosto pessoal. Cidadão Kane é um último, e maior, passo da história do cinema para se distanciar do teatro. Diferente dos que vieram antes dele, que possuiam elementos isolados que tornavam a obra um filme (o som, um movimento novo de câmera, um corte feito em um momento atípico), Cidadão Kane é formado por tudo aquilo que hoje definimos como padrões cinematográficos. Ele moldou, em 1941, tudo aquilo que hoje consideramos essencial para a fotografia em movimento.

Está lá a edição, a fotografia dinâmica (planos elaborados, sequências longas), a quebra do cenário-como-palco, personagens isolados de seu fundo, a profundidade de campo… ninguém havia feito isso antes e, mesmo depois, poucos conseguiram empregar tantas técnicas com tamanha destreza quanto Orson Welles. Ao mesmo tempo que Cidadão Kane sedimenta o que é o cinema, ele também o coloca em um nível altíssimo. É, para todos os efeitos, a obra que determinou o que era o filme.

Mas Cidadão Kane, por fora de sua relevância histórica, é um filme que não te deixa tirar o olho da tela. É uma revolução narrativa. Você precisa, você quer saber sobre Kane. Quem ele foi, o que ele se tornou. É uma tragédia grega, tanto quanto A Rede Social (seu fiel sucessor em termos de revolução cinematográfica, ao exibir o futuro pleno do cinema com a fotografia digital), e Kane é vítima de seu tempo, e do tempo que criou.

  • Prós: a imprescindível relevância cinematográfica, sua história extremamente bem construída, e um personagem enigmático. Cidadão Kane é o cinema.
  • Contras: como é feito em 1941, muito do que ele criou nós já vimos centenas de vezes em filmes posteriores. Para apreciar Cidadão Kane, você precisa ir até a sua data de estréia, e entendê-lo de lá.
  • Veredicto: Cidadão Kane é tão, ou mais, relevante para o cinema quanto foi O Nascimento de uma NaçãoJanela IndiscretaUma Mulher Sob Influência e, mais recentemente A Rede Social. Todos são as bases do cinema que conhecemos hoje, mas Cidadão Kane independe de qualquer coisa por ser aquilo que é: não só a revolução que representa, o último passo na transição do cinema como linguagem própria, mas um filme pleno: Cidadão Kane nunca se eleva ao patamar de importância de Kane, seu personagem, este sim o grande mérito de um filme irretocável.

Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941). Estados Unidos. Escrito e dirigido por Orson Welles; fotografado por Gregg Toland; editado por Robert Wise; trilha-sonora composta por Bernard Herrmann; com  Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead, Ruth Warrick, Ray Collins, Erskine Sanford, Everett Sloane, George Coulouris, Paul Stewart.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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