Uma Mulher Sob Influência (A Women Under the Influence, 1974)

Como sabemos que estamos assistindo um grande filme? Para mim, não há relevância histórica que define, é tudo percepção pessoal. Eu acho “grandes filmes” aquelas projeções que me fazem sentir em mim mesmo os sentimentos dos personagens. Seja o medo de Deckard ao fugir de Roy Batty em Blade Runner: O Caçador de Andróides; a compulsão apaixonada de Zorg por Betty em Betty Blue, a sede de sobreviver de Malick em O Profeta; a euforia dos jovens visionários em A Rede Social; a saudade, e a fúria, de Céline em Antes da Meia-Noite; a estranheza — mas também a aconchegante intimidade — da mulher e do escritor em Cópia Fiel; os medos, mas também os fascínios, de Mai, Chihiro e Takashi em Meu Amigo TotoroA Viagem de Chihiro, e Túmulo dos Vagalumes. Um grande filme é, para mim, quando os personagens são tão vivos, são tão centrais, e suas situações são tão humanas, que eu consigo acompanhá-los lado a lado. Esses são meus grandes filmes.

Então sou apresentado à Uma Mulher Sob Influência, um dos filmes de John Cassavetes que foi lindamente esquecido por aqui e recebeu, só em 2007, uma exibição limitada em cinemas de rua. Uma Mulher… não é feito por personagens. Ele é seus personagens. Ao colocar a câmera de mão (Cassavetes revolucionou esse uso, que hoje é usado a torto e a direito) sobre os ombros de Mabel (Gena Rowlands numa das interpretações mais fortes do cinema), enquanto ela expõe com tanta angústia os seus medos e suas alegrias, e em seu cotidiano. O cotidiano que, aos olhos de todos, a enlouqueceu.

É comum ver filmes e escutar relatos que, entre as décadas de 50 e 80, haviam muitas mulheres “enlouquecendo” e sendo internadas (Foi Apenas Um Sonho exibe um tema semelhante). Mas eu nunca vi nada retratado dessa forma. Cassavetes não tem medo de nos colocar por dentro da pele de Mabel ou de Nick (Peter Falk em outra atuação extraordinária), não tem medo de filmar, com uma sinceridade cortante, as dores de Mabel e a estranheza de todos que a circulam.

O que é a insanidade de Mabel senão uma tentativa de contornar a realidade? Dona de casa, mãe de três filhos, amada (e amante incondicional) de seu marido, ela é a mulher que se espera dela. Mas isso é o que ela esperaria dela mesma? Presa em sua redoma de realidade, buscando uma melhor, enquanto a própria vida a prega em seus serviços, enquanto sua cabeça não para de se questionar, enquanto o tempo não para, Mabel se vê onde se vê. Ela não se aguenta mais. Ela não aguenta mais a realidade que lhe prende, nem a realidade que sonhou. E quando duas realidades se encontram, as guerras começam. Mas, antes disso, precisamos tirar a mesa.

  • Veredicto: não há “prós” e “contras” para Uma Mulher Sob Influência. Ele não é um filme perfeito mas é o filme que é, nada pode ser tirado ou posto. Ele é, com certeza, uma das mais importantes realizações do cinema americano de sempre; é um marco de direção, de atuação, e de narrativa. É um grande filme.

Uma Mulher Sob Influência (A Woman Under the Influence, 1974). Estados Unidos. Escrito e dirigido por John Cassavetes; com Gena Rowlands; Peter Falk; editado por David Armstrong, Sheila Viseltear; trilha-sonora composta por Bo Harwood.

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Autor: Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

5 comentários em “Uma Mulher Sob Influência (A Women Under the Influence, 1974)”

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