Gravidade (Gravity, 2013)

Se eu pudesse assistir a apenas um filme esse ano, eu veria Antes da Meia-Noite. Se eu pudesse ver mais um, eu não teria dúvidas: eu assistiria Gravidade.

Gravidade não é só o maior feito técnico do cinema americano recente, é a forma máxima de expressão de um diretor para a sua história. É a execução definitiva do 3D, utilizando uma profundidade de campo nunca antes empregada na história, junto a planos sequência longuíssimos, onde a câmera não possui eixo, ou qualquer outra referência para se mover. A câmera, como os dois astronautas que ficam à deriva no espaço, está cercada do vazio. Um vazio tão colossal, mas tão belo, que nunca deixa Gravidade ser um filme chato.

Mas não pense que Gravidade usa essa tecnologia como Avatar, onde a tecnologia está lá como vitrine. Em Gravidade, o nível sem precedentes do visual, da movimentação de câmera, da profundidade do campo, da “naturalidade” da iluminação, está lá para tornar a experiência de terror, de tensão constante, de um medo inimaginável para nós, em algo palpável. Estar à deriva não no mar, nem em terra, mas no completo vazio, onde ninguém pode lhe ouvir, onde ninguém pode lhe alcançar, é um medo que eu não consigo imaginar minha reação.

É nessa tensão constante e em uma situação inimaginável de tão aterrorizante que Alfonso Cuarón, diretor de filmes fantásticos como E sua mãe tambémFilhos da Esperança, usa para traçar um paralelo do nascimento. A Dra. Stone, ao girar na cabine em uma posição fetal, ao ter que reaprender a respirar e a andar, ao ter que passar por verdadeiras entranhas mecânicas, precisará sair de seu casulo. E se a atuação de Sandra Bullock não condiz à altura com o desafio, ao menos ela não desaponta, uma vez que ela utiliza uma inteligente técnica que lhe rendeu um Oscar a uns anos atrás: usar o próprio filme ao redor a seu favor. Ao vê-la se debatendo no espaço tentando se segurar em algo, em qualquer coisa, enquanto a câmera de Cuarón gira em torno dela sem qualquer limite de onde pode alcançar, você esquece de qualquer problema de atuação, de qualquer necessidade do backstory. Você só quer que a Dra. Stone consiga, afinal, se segurar.

  • Prós: a beleza e a perícia técnica sem precedentes. Nunca antes uma revolução técnica do tamanho da que existe em Gravidade foi utilizada para tornar a experiência que ela quer propôr, o argumento que ela quer sustentar, com tamanha força.
  • Contras: a atuação de Bullock pode até ter seus momentos de fraqueza (em determinada cena, ela parece controlada demais para alguém que vê uma saída). Mas há ressalvas aqui: não há como encontrar um suporte, uma situação a qual se basear, é uma atuação no escuro. Eu, pessoalmente, não me senti incomodado por isso.
  • Veredicto: Gravidade é mais um marco da ficção científica (depois de 2001, Alien e Star Wars) em torno da revolução da técnica cinematográfica em transmitir suas histórias. É sem precedentes, tanto em beleza visual quanto em potência da história. Não há como explicar: é uma situação cinematográfica plena. Não existe expressão mais poderosa para a situação exposta como essa de Cuarón.

Gravidade (Gravity, 2013). Estados Unidos, México, Reino Unido. Dirigido por Alfonso Cuarón; escrito por Alfonso Cuarón, Jonas Cuarón; fotografado por Emmanuel Lubezki; editado por Alfonso Cuarón, Mark Sanger; trilha-sonora composta por Steven Price; com Sandra Bullock, George Clooney.

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Autor: Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

3 comentários em “Gravidade (Gravity, 2013)”

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