Talvez seja coisa da minha cabeça, mas muitos filmes argentinos que eu vi recentemente (o que é bom, pois há um tempo eu nunca conseguia encontrar essas produções por aqui) tratam sobre a amargura. E, embora O Segredo dos Seus Olhos seja um filme policial com todo o melodrama que lhe é de direito, o gosto agridoce da amargura (ou da nostalgia, vai ver alguém interprete assim) é perceptível.

Longe de ser um problema, essa amargura mostra como O Segredo dos Seus Olhos é extremamente sensível, principalmente considerando que ele é um filme policial, um gênero que geralmente esvazia seus personagens para que eles não sejam mais interessantes que o mistério que investigam. O passado de Benjamin é tão vívido que ele não consegue se desprender, esquecer, de se perguntar o que teria acontecido. É, afinal, um filme que analisa o tempo de maneira singular: o passado, que precisa ser deixado para trás, mas que ao mesmo tempo abrange uma época perturbadora, porém deliciosa, de uma vida; o presente, um completo vazio (não é a toa que Benjamin se cerca em sua casa com a mobília da época do crime que dá centro à trama); e o futuro, incerto, desejado e temido.

É inteligente que O Segredo dos Seus Olhos trate o tempo com uma sensibilidade rara em seu gênero (um filme genuinamente de gênero, vale dizer). Um crime, principalmente não resolvido, deixa marcas eternas, não só na vítima ou no criminoso. Analisar o tempo através dessas marcas, dos efeitos de um dia em que o café acabou de um jeito anormal, é o grande acerto de um dos melhores filmes sul-americanos dos últimos anos. Por trás de toda a impecável técnica de O Segredo dos Seus Olhos vive uma obra mais simples, mas não menos bela: uma obra sobre os vestígios do tempo em uma pessoa que se recusa a percebê-lo passar.

  • Prós: a sensibilidade com que o filme trata seus personagens, algo incomum para seu gênero; ser, sem medo, um filme de gênero específico e não querer fugir de todo o hábito que possui; e a incrível técnica que é empregada, uma produção irretocável (sim, com o ápice no plano sequência do campo de futebol).
  • Contras: o melodrama incomoda em alguns pontos, mas não tem como fugir dele.
  • Veredicto: O Segredo dos Seus Olhos é desses filmes que envelhecem bem. Curiosamente, é porque ele tem em seu tema central essa percepção do tempo, da culpa. É, também, um filme completo: ele começa com seus mistérios e, ao final, soluciona todos eles, entregando mais uma pergunta para que o espectador conserve consigo. Trabalho na medida — algo que, por incrível que pareça, é cada vez mais raro.

O Segredo dos Seus Olhos (El secreto de sus ojos, 2009). Argentina, Espanha. Escrito e dirigido por Juan José Campanella; fotografado por Félix Monti; editado por Juan José Campanella; trilha-sonora composta por Federico Jusid, Emilio Kauderer; com Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago, Javier Godino, Guillermo Francella, Carla Quevedo, Bárbara Palladino, Rudy Romano.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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