Existem uns filmes que me deixam extremamente desconfortável. Não pelo que eles falam em si, mas como eles são retratados. Filmes sujos, angustiantes, claustrofóbicos. Réquiem para um Sonho é assim. Lolita também. Os 12 Macacos é outro exemplo. Fazia tempo que eu não via um filme pela primeira vez e que me deixasse com essa sensação. Daí eu vi O Jardim de Cimento.

Baseado em um pequeno livro de Ian McEwan (um livro que eu gosto muito de um autor que eu gosto muito), O Jardim de Cimento é uma adaptação lá e cá: ela transpõe cada detalhe do livro, mas não como Desejo & Reparação fez, de um jeito bonito. Ele dá uma textura de sujeira, um ar desolado, distante. É um filme totalmente climático, totalmente desconfortável. E como eu gostei disso.

Narrando a tragetória de quatro irmãos que, após a morte dos pais, passam um verão um tanto estranho, O Jardim de Cimento é daqueles filmes em que você se questiona como tiveram coragem de filmar aquilo. É um livro bastante forte, e o filme exprime o incesto, a criança travesti, a brincadeira de médico, com a crueza que você lê. Não é um filme para se ver de bom humor, porque ele vai acabar com seu sorriso. É um filme sério, pra ver quando você está afim de explorar temas mais difíceis. O Jardim de Cimento, com sua abordagem desconfortável de tão suja e explícita, é um filme ideal para esses momentos. Te deixa com os ombros presos no pescoço, mas você percebe que vai valer a pena.

  • Prós: as excelentes atuações dos jovens; toda a direção climática;
  • Contras: ele não foi lançado em DVD, nem blu-ray. O VHS dele sumiu, e agora só dá pra ver pelo Netflix com uma qualidade bem ruim;
  • Veredicto: um filme desconfortável, sim, mas necessário. McEwan escreve sobre a marginalidade da Inglaterra que poucos querem ver. Existe isso em todo o lugar, mas só em O Jardim de Cimento ele é narrado como um conto pulp. Tem coisa melhor? Não.

O Jardim de Cimento (The Cement Garden, 1993). Escrito e dirigido por Andrew Birkin, baseado no romance “O Jardim de Cimento” de Ian McEwan; fotografado por Stephen Blackman; editado por Toby Tremlett; trilha-sonora composta por Ed Shearmur; com Andrew Robertson, Charlotte Gainsbourg, Alice Coulthard, Ned Birkin, Sinéad Cusack, Hanns Zischler, Jochen Horst, Gareth Brown, William Hootkins, Dick Flockhart, Mike Clark.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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