Ontem eu falei de Eraserhead, um filme do David Lynch, que é um diretor conhecido por filmar sonhos. Seus filmes trazem todos aqueles sentimentos muito vívidos que sentimos ao sonhar, e toda aquela estranheza um tanto particular de quão pessoais são os sonhos. Ao seu modo, Richard Linklater também filma sonhos.

Waking Life é declaradamente um sonho. O jovem que não consegue acordar começa a viajar pelas ruas de sua mente e a conversar com seus professores, parentes e amigos (todos são pessoas reais, a exceção dos personagens de Ethan Hawke e Julie Delpy, que reprisam os personagens de Jesse e Cenine de Antes do Amanhecer, Pôr-do-SolMeia-Noite em uma realidade alternativa). Linklater usa a estrutura dos sonhos para desprender seus filmes de qualquer necessidade de lógica narrativa, uma coisa que prende suas discussões em períodos de tempo e espaço. Waking Life é um sonho ideal.

Nele, só há conversas. E ninguém é tão bom quanto Richard Linklater em expressá-las em tela. Ver uma discussão existencial, uma conversa entre diretores de cinema, ou um papo sem pé nem cabeça, é aquilo que é o cinema de Linklater. E em Waking Life, onde a imagem está solta ao léu, em que cenários se desfazem para criar outros, em que nada é constante, em que tudo se reflete, onde suicídas são os donos da filosofia, onde os bêbados regem orquestras e onde macacos ensinam física, tudo respeita uma lógica própria, um sonho visto de dentro. Um mundo onde essas regras que nos prendem ao executável são excluídas a favor da simples existência para a conversa. Um mundo onde o papo é o centro, onde a interação, as cores, a percepção e o tempo não são materiais do sonho. São a mais pura realidade da nossa existência.

  • Prós: tudo. Waking Life é mais um filme excelente de Richard Linklater, um diretor que não tem medo de expor suas opiniões e medos para receber tapas.
  • Contras: absolutamente nenhum.
  • Veredicto: ver professores, cachorros, casais, bêbados, suicidas, crianças e nuvens conversando entre si, em que não é necessário executar, apenas dialogar, onde a conversa é o centro de tudo, é algo que nos dá vontade de pular para dentro do universo mutável e caótico de Waking Life para nunca mais acordar.

Waking Life (2001). Estados Unidos. Escrito e dirigido por Richard Linklater; fotografado por Richard Linklater, Tommy Pallotta; editado por Sandra Adair; trilha-sonora composta por Glover Gill; animado por Jason Archer, Paul Beck, John Bruch, Jean Caffeine, Zoe Charlton, Randy Cole, Jennifer Deutrom, Kate Dollenmayer, Rahab El Ewely, Pat Falconer, Holly Fisher, Dan Gillotte, Nathan Jensen, Matthew Langland, Mike Layne, Travis Lindquist, Chris Minley, Katy O’Connor, John Paul, Shannon Pearson, Eric Power, Bob Sabiston, Susan Sabiston, Katie Salen, Divya Srinivasan, Patrick Thornton, Penny Van Horn, Mary Varn, Rosie Weaver, Wiley Wiggins, Constance Wood; com Wiley Wiggins, Ethan Hawke, Julie Delpy, Adam Goldberg, Nicky Katt, Steven Soderbergh, Steven Prince, Caveh Zahedi, Jason Liebrecht, Brent Green, Timothy “Speed” Levitch, Richard Linklater, Charles Gunning, Alex Jones, Eamonn Healy, Robert C. Solomon.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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