“Os Estados Unidos possui uma fascinação doentia pelos tipos de Bonnie & Clyde” diz Marc, um dos membros da “gangue de Hollywood” que invadiu as casas de celebridades do mundo pop roubando sapatos, relógios, jóias, roupas… Marc está certo em sua colocação. Quando recebeu 800 solicitações de amigos no Facebook após ser acusado de ter assaltado quase uma dezena das mansões de Los Angeles, Marc era parte do mundo que ele sempre admirou.

Bling Ring: A Gangue de Hollywood é o filme mais palatável de Sofia Coppola. Ele mantém a distância e a simplicidade que a caracterizam, mas há um ritmo mais frenético aqui. São jovens alcançando a fama que eles almejavam afinal e, em Hollywood, cada um tem seus meios. É essa franqueza de Sofia, exibindo como cada um daqueles jovens reage às suas acusações (Marc se desespera; Nicki vê como o trampolim para seu sucesso) que tornam Bling Ring um filme tão genial quanto os outros de sua filmografia.

Há três cenas-chave em Bling Ring: a primeira, quando Marc e Rebecca entram na casa de uma celebridade em uma colina. A casa é toda de vidro, e Sofia não entra com a câmera lá. Acompanhamos a invasão em sua distância habitual, escutando os sons da rua, enquanto as luzes automáticas fazem o serviço de identificar quais peças da casa eles estão adentrando. A segunda, em que todos os jovens estão em uma festa, e ouvimos o prólogo de Bankrupt! da banda francesa Phoenix, com acessórios do último assalto, sendo “aceitos” em meio à todo aquele grupo de jovens que, de uma maneira ou de outra, são tão “ninguém” quanto eles. E a terceira, em que Nicki dá o endereço de seu site para que possamos acompanhar o seu ponto de vista naquela “trajetória de ensinamentos e enriquecimento espiritual”. Observe essas três cenas, e como Sofia Coppola consegue construir um argumento indestrutível, em que discute todo o vazio existencial de nossa cultura à celebridade. Essas três cenas provam que Bling Ring: A Gangue de Hollywood é um filme tão triste, por dentro e por fora, que os já clássicos Encontros & DesencontrosUm Lugar Qualquer e o ótimo Maria Antonieta.

Ninguém no cinema americano contemporâneo e tão direto e sincero como Sofia Coppola. Ninguém usa de uma simplicidade, e de um indiscutível talento (que parece ter vindo do berço) para contar com tanta propriedade de um problema social que parece banal (jovens idolatrando um consumismo doentio) mas que, com os parênteses que a jovem Coppola dá ao seu filme cheio de nuances, mostra-se uma questão muito maior que a questão pop.

  • Prós: como é de praxe em qualquer filme de Sofia Coppola, a direção impecável, a trilha-sonora bem escolhida e condizente com o argumento, a excelente fotografia naturalista, e mais uma fascinante atuação de Emma Watson.
  • Contras: Sofia intercala seus pequenos clássicos com filmes mais “leves”. Bling Ring não é o ponto mais alto da sua carreira, o que não significa que não seja um filme excelente.
  • Veredicto: em um filme bem mais rítmico que suas obras anteriores, Sofia Coppola entrega em Bling Ring mais um conto moderno do nosso preocupante vazio existencial, preenchido com uma doentia necessidade de absorver, e fazer parte, do pop.

Bling Ring: A Gangue de Hollywood (The Bling Ring, 2013). Estados Unidos. Escrito e dirigido por Sofia Coppola; fotografado por Christopher Blauvelt, Harris Savides; editado por Sarah Flack; com Emma Watson, Leslie Mann, Taissa Farmiga, Israel Broussard, Katie Chang, Claire Pfister, Georgia Rock, Maika Monroe.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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