A primeira das cinco partes da grandiosíssima produção que é Capitu só me empolgou lá pela metade, quando Dom Casmurro parou de expor seu passado remoto com flashes e misturas de ópera e comédia grega. Ele funciona quando a personagem título aparece, belíssima. A parte dois, que já conta com sua musa desde o princípio, funciona muito mais.

Luiz Fernando Carvalho faz dessa segunda parte de Capitu um acerto de contas com os deslizes do anterior: a metalinguagem e o “expressionismo” que ele emprega são mais centrados, mais focados em transpôr a narrativa de Machado de Assis ao pé da letra.

Faz isso indiscutivelmente bem. Vendo que a produção é toda dentro de um teatro, ver como todo aquele ambiente se dobra e desdobra para formar toda a vila da infância de Bentinho é algo a ser considerado. Carvalho é mestre em fazer de pouco um bocado, e aqui toda a riqueza da sua linguagem, quase que barroca, serve para enriquecer, e não para experimentar. A transposição idêntica dos diálogos, a improvisação das situações (Capitu e Bentinho furungam um quadro de giz, na falta de um muro, o que dá maior leveza e fluidez aos desenhos da garota).

O segundo capítulo de Capitu funciona muito bem. É ainda mais lindo, mais fluido e mais apaixonante. Parece durar menos, mas desenvolve muito mais da história. Ponto positivo para uma adaptação literal e não literal ao mesmo tempo. Atende a proposta muitíssimo bem.

  • Prós: todos os pontos positivos do capítulo anterior são ressaltados aqui. Carvalho é ainda mais direto, mas mais alegórico, pra citar Machado.
  • Contras: nenhum.
  • Veredicto: Capitu se prova, cada vez mais, a adaptação definitiva de “Dom Casmurro”. A proposta de Luiz Fernando Carvalho, de ser literal e não literal ao mesmo tempo é melhor vista aqui, com sua improvisação calculada, sua progressão difusa, e sua indiscutível qualidade artística.

Capitu (2008) — parte dois (de cinco). Escrito e dirigido por Luiz Fernando Carvalho, baseado no livro “Dom Casmurro” de Machado de Assis; fotografado por Adrian Teijido; editado por Márcio Hashimoto Soares; trilha-sonora composta por Tim Rescala; com Michel Melamed, Maria Fernanda Cândido, Eliani Giardini, Letícia Persiles, César Cardadeiro, Pierre Baitelli, Rita Elmôr; Antônio Karnewale.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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