O filme de estréia de um diretor tende a cair em alguns lugares comuns: ele pode ser aquele filme-de-produtor, encomendado e com quase tudo já manjado; ou pode ser aquele filme de diretor que, um dia, sonha em ser um autor — ele subverte alguns conceitos estabelecidos, brinca com a montagem, esbugalha a fotografia e, normalmente, cria uma reviravolta mirabolante no clímax (porque o diretor quer impressionar o espectador, afinal de contas). Isso aconteceu com vários excelentes diretores, mas há um ou outro caso que parece não se aplicar.

Doze Homens e Uma Sentença é o filme de estréia de Sidney Lumet. Ambientado quase completamente em uma sala com doze homens discutindo, não poderia ser mais contido e eficiente. Já nos primeiros nove minutos temos um lindo plano sequência em que esses homens nos são apresentados, cada um com seu ponto de vista e princípios.

Em tempo real, a uma hora e meia que se passa naquela sala voa. As discussões do júri, que deve ou inocentar ou sentenciar um jovem condenado por matar seu pai à cadeira elétrica, iniciam com uma discussão quase que banal sobre como as testemunhas eram irrefutáveis, para uma análise crítica e minuciosa do sistema legal americano. Exemplificações do ocorrido na hora do assassinato, “dúvidas razoáveis”, ferrenhas discussões baseadas em preconceito… nada disso parece exercer poder maior ao todo em Doze Homens e Uma Sentença. Já em sua estréia, Lumet tem controle sobre tudo, e nem a técnica nem o argumento se sobrepõe ao pacote final.

A invejável fluidez com que o filme se desenvolve é raríssima no cinema, e ver um grande diretor já mostrar um domínio enorme sobre o ritmo em seu filme de estréia, em tempo real e em apenas uma sala com os mesmos personagens e um mesmo centro de discussão (não há mudanças drásticas no tema, embora ele aumente de escopo), é simplesmente mágico. Doze Homens e Uma Sentença é exemplo de cinema de alta qualidade, que prende com pouco, que surpreende pelo desenvolvimento — e não pela quebra dele — e, a todo o instante, parece que irá lhe tirar o fôlego.

  • Prós: tudo. Doze Homens e uma sentença é a prova viva de que grandes diretores entendem o bom cinema como ninguém; o ritmo, a fluidez e o desenvolvimento da história e de seu diálogo é impressionante.
  • Contras: nenhum.
  • Veredicto: em uma linda fotografia em preto-e-branco, com atuações sublimes de um grupo de homens e a mágica direção que um até então novato, hoje já considerado um mestre, proporciona, Doze Homens e uma Sentença é daqueles filmes impecáveis — pequeno, minucioso e completo.

Doze Homens e Uma Sentença (Twelve Angry Men, 1957). Estados Unidos. Dirigido por Sidney Lumet; escrito por Reginald Rose; fotografado por Boris Kaufman; editado por Carl Lerner; trilha-sonora composta por Kenyon Hopkins; com Martin Balsam, John Fiedler, Lee J. Cobb, E.G. Marshall, Jack Klugman, Ed Binns, Jack Warden, Henry Fonda, Joseph Sweeney, Ed Begley, George Voskovec, Robert Webber.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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