Eu não consigo não amar um filme de Sofia Coppola, mesmo quando ela implora por isso.

Um Lugar Qualquer é um filme estruturado para causar ódio, de início ao fim. A jovem Coppola, em seu quarto filme, sabe como fazer isso (afinal de contas, pegou uma personagem historicamente odiada e a encheu de ironia em Maria Antonieta): criou um personagem irrealmente chato, colocou-o em um cotidiano realista demais e, depois, o quebrou.

Esse quarto filme de Coppola é, de alguma forma, uma terceira visita a um tema que ela estudou em Encontros & Desencontros e Maria Antonieta. A vida perdida e sem sentido das celebridades. Se, no primeiro, ela precisou levar seu personagem para Tóquio para abrir os olhos, e no segundo foi preciso uma revolução, Um Lugar Qualquer tenta ser mais próximo. Um astro de filmes de ação de Hollywood vive no Chateau Marmont, com sua Ferrari e duas coelhinhas da Playboy que o visitam seguidamente. É com elas, inclusive, que Coppola constrói, em uma cena, seu personagem: numa polidance exclusiva, o cara dorme.

Sofia Coppola não sabe criar planos sem sentido e descuidados. Aqui em Um Lugar Qualquer, temos uma cena de sete minutos de Johnny Marco fumando, pensando no que fazer. A cena não leva a lugar algum, porque ele justamente não está em qualquer lugar. É preciso que sua filha seja largada pela ex-mulher no hotel para que ele perceba. Mas decepciona-se quem espera que Coppola mostre isso no filme. Ela mostrará, justamente, ele tentando fazer a filha ser feliz naquele seu vazio particular.

Em um plano magnífico, Sofia Coppola exibe os dois na beira da piscina, tomando sol, no luxuoso Marmont. O plano de conclusão, que resume tudo o que ela quer mostrar. Coppola cria esses planos perfeitos ao terminar um filme (o cochicho inaudível em Encontros e Desencontros, o sorriso triste de Maria Antonieta). O pior erro de Coppola, aqui, foi acabar no lugar errado. O filme termina bem depois, depois da alegoria da vida oca de Marco numa face de gesso, ou deles terem ido à Itália. Ele vai acabar numa ilusão: Marco não é mais aquilo que imaginávamos.

  • Prós: de novo, Sofia Coppola cria personagens perdidos na sua fascinante vida. E isso soma-se à sua direção de atores, de fotografia e de trilha-sonora impecáveis.
  • Contras: o ritmo do filme é extremamente lento. Diferente das cenas de suspensão de Encontros & Desencontros e Maria Antonieta, onde a diretora desenvolvia seus personagens, Um Lugar Qualquer vive de suspensão, e aí perde impacto.
  • Veredicto: Um Lugar Qualquer é, sim, o mais fraco da trilogia do sucesso de Coppola. Mas é, de novo, um filme estupidamente sincero e triste. E só por isso já o torna excelente.

Um Lugar Qualquer (Somewhere, 2010). Estados Unidos, Itália. Escrito e dirigido por Sofia Coppola; fotografado por Harris Savides; editado por Sarah Flack; com músicas de Phoenix; com Stephen Dorff, Elle Fanning, Benicio Del Toro, Michelle Monaghan.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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