O filme de máfia, assim como o faroeste, é um gênero muitíssimo americano. Consagrado com Poderoso Chefão, Bons Companheiros e Os Intocáveis, o estilo é uma casa de clássicos extremos do cinema. Estrada Para Perdição tenta, à bala, reservar seu espaço entre eles.

Sam Mendes, mestre em exibir situações familiares no limite (como tinha feito antes em Beleza Americana e depois em Foi Apenas Um Sonho e Distante Nós Vamos e, em certa medida, Skyfall), usa a árvore familiar da máfia para discutir a paternidade — cerne da linhagem mafiosa.

O que eu gosto muito nos filmes do Mendes é que ele mantém as convenções do cinema britânico clássico (quase formais), e as une com a acidez de sua direção. O caçador é sádico, mas as cenas de assassinato nunca são vulgares; a máfia é sisuda, mas as personas são todas caricatas. A riqueza do cinema de Mendes se dá nesses detalhes (que ele exploraria muito bem em Distante Nós Vamos), quando o subtexto e o texto trocam de lugares — a caçada da trama e a paternidade estão sempre buscando espaço na tela.

No fim, Estrada Para Perdição é um filme de máfia excelente que, com a ação contida que Mendes reserva (como o segundo filme dele, deve ter pensado não conseguir dirigir bem a ação) para momentos específicos e belos (a cena da chuva é um dos pontos mais altos da carreira dele). Claro, como sendo um filme de início de carreira, Mendes ainda tenta se mostrar, o que torna o filme um pouco mais pretencioso e faminto do que deveria, o que tira um pouco de seu digno brilho e austeridade, e o remove do panteão onde os clássicos de Coppola, Scorsese e De Palma estão.

  • Prós: como nos outros filmes de Mendes, Estrada para Perdição é carregado de temas muito mais pessoais que os apresentados na superfície; a fotografia, a trilha-sonora e as atuações são soberbas.
  • Contras: Tom Hanks foi a pior escolha possível pro papel principal, a pretensão do diretor tira um pouco do seu brilho;
  • Veredicto: incrivelmente belo, Estrada para Perdição é mais um dos estudos familiares e pessoais de Mendes, que pontua a ação de uma história em quadrinhos frenética. Recheado com trilha-sonora incrível e fotografia digna de um clássico, Estrada para Perdição pode não alcançar os grandes filmes do gênero, mas marca seu lugar nos poderosos filmes de máfia do nosso tempo.

Estrada Para Perdição (Road to Perdition, 2003). Estados Unidos. Dirigido por Sam Mendes; escrito por ax Allan Collins, David Self, Richard Piers Rayner; fotografado por Conrad L. Hall; editado por Jill Bilcock; trilha-sonora composta por Thomas Newman; com Tom Hanks, Jude Law, Paul Newman, Daniel Craig, Tyler Hoechlin, Stanley Tucci, Rob Maxey, Liam Aiken, Jennifer Jason Leigh, Ciarán Hinds, Dylan Baker.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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