Antes de sequer ser lançado, Millennium — Os Homens Que Não Amavam as Mulheres já estava sendo criticado porque era um remake de um filme sueco recente. A crítica era ilustrativa, claro — o foco era criticar a falta de criatividade do cinema americano atual. Até que o filme foi lançado e agraciado como superior ao original.

E isso se deve porque David Fincher é um diretor maduro. Se tivesse feito esse filme ainda na época em que fez Clube da LutaVidas em Jogo, o resultado teria sido um filme mais caricato e gratuito que o original. Mas nessa sua atual fase ele retira os excessos (do filme e do livro), encurta caminhos e, como em toda a boa adaptação de uma obra para o cinema, dá movimento e sentido.

Millennium funciona, porém, porque Fincher usa o cinema como processo. Na cena em que Henrik propõe para Mikael seu trabalho, o diretor filma Christopher Plummer contando o mistério; corta para Daniel Craig se aprumando na cadeira; corta para Plummer se curvando, revelando mais detalhes; para Craig fixando o olhar no contraponto; e para Plummer, de novo, arrastando um prato de comida. Suculento.

Millennium é, como A Rede SocialZodíaco, um processo de investigação minucioso. Sem os metacomentários do filme anterior (Fincher está apenas contando a história aqui), o processo fica bem fluido. O exemplo que dei acima funciona porque, assim como qualquer outro filme do diretor, a sequência tem a duração certa e cada corte é milimetricamente pensado, tornando o processo quase imperceptível (uma engrenagem por trás do roteiro, inteligentíssimo). E ele faz isso por todo o filme: excluindo completamente passagens que não agregariam nada ao seu tom sombrio e triste que pretendia com essa adaptação, muito mais fria que a original.

  • Prós: como todo o filme de Fincher, é perfeitamente fotografado, desenhado, atuado, cortado e pensado. É também mais frio e lúgubre que o original, tornando-o mais urgente e impactante.
  • Contras: da safra nova do diretor, esse é seu filme mais funcional, mas o mais fraco.
  • Veredicto: superior a 80% dos suspenses que vemos por aí, esse novo Millennium é frio, calculista e investigativo (uma investigação de uma investigação, brilhante!). Passa longe do melhor do Fincher, mas bom demais pra ser ignorado.

Millennium — Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (The Girl With The Dragon Tattoo, 2011). Estados Unidos, Alemanha, Suécia, Reino Unido. Dirigido por David Fincher; escrito por Steven Zaillian, baseado no livro “Os homens que não amavam as mulheres”, por Stieg Larsson; fotografado por Jeff Cronenweth; editado por Kirk Baxter, Angus Wall; trilha-sonora composta por Trent Reznor, Atticus Ross; com Daniel Craig, Stellan Skarsgård, Rooney Mara, Robin Wright, Christopher Plummer, Embeth Davidtz, Joel Kinnaman, Joely Richardson, Goran Višnjić.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

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