Assistir Não Estou Lá tem um problema: ao final, tu precisa ir escutar o máximo de músicas do Dylan que conseguir antes de comprar uma gaita de boca no Mercado Livre.

Eu não sei, mas eu tenho a impressão de que, se Bob Dylan viu esse filme, ele deve ter curtindo um monte. O diretor (Todd Haynes, não lembro de ter visto outro filme dele) não tentou emular a vida do cantor/compositor/escritor/ator/meio-filósofo. Ele pega todos os mitos que formam a lenda desse gênio que é o Dylan e coloca mais lenha na fogueira.

A gente não tem nenhum personagem chamado Dylan. Todos os atores que o interpretam — uma parte dele, como Haynes quis mostrar — possuem uma alcunha. Tem o ator, o poeta, o filósofo, o rebelde, o trabalhador, o cristão… Tem de tudo, na verdade. E o filme é excelente porque mistura todas as histórias/personas de Dylan em um emaranhado tão confuso e tão fascinante que só acresce à figura lendária do cara. Eleva ele a um patamar de monumento: ele revitalizou o folk, destruiu o folk, pensou na vida, voltou, e principalmente, cantou sobre ela.

E é impossível falar de Não Estou Lá, esse fascinante tributo à vida de um dos mais importantes músicos da História, sem falar de Cate Blanchett. Perfeita. Ela é linda até fazendo o Dylan. O jeito de falar, de olhar, de cantar e de mandar todos se foderem. É Dylan, mas é mais Dylan que Dylan. É algo que não dá pra descrever.

Não Estou Lá é isso. Não é uma cinebiografia, como foi Ray ou Piaf!. É um tributo. Um apinhado de histórias e de mentiras, que juntas criam uma lenda. É uma exploração de documentário, ficção, não ficção e bobagem. É Blanchett. É Dylan.

E tem, lá no final, o Dylan — na única aparição dele mesmo (em nenhum momento o filme mostra ou cita o cara), no solo de gaita de Mr. Tambourine Man. Não Estou Lá eterniza e mistifica Dylan, agora também no cinema.

  • Prós: é uma mentira e uma verdade, uma brincadeira e uma coisa séria. É o Dylan em formato de filme. Importante e inteligente, mas atrás de uma grossa camada de ironia.
  • Contras: nada, nada e nada.
  • Veredicto: não adianta só contar a história de um cantor. Tem que tornar isso um apinhado de acontecimentos históricos, meio verdades, muito mentiras. É colocar Like A Rolling Stone, Mr. Tambourine Man, Desolation Row e Visions Of Johana na mesma seção, misturar e colocar em imagens. Um pequeno épico da vida.

Não Estou Lá (I’m Not There., 2007). Estados Unidos, Alemanha. Dirigido por Todd Haynes; escrito por Todd Haynes, Oren Moverman; fotografado por Edward Lachman; editado por Jay Rabinowitz; com Cate Blanchett, Ben Whishaw, Christian Bale, Richard Gere, Heath Ledger, Marcus Carl Franklin, Charlotte Gainsbourg, Kris Kristofferson, Julianne Moore, Michelle Williams, Bruce Greenwood, Kim Gordon, David Cross, Kristen Hager.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

Se junte à conversa

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.