Embora eu goste dos filmes do diretor dinamarquês Lars Von Trier, eu não partilho de sua visão pessimista do homem e da natureza. Se em seus melhores filmes (Ondas do DestinoDançando no EscuroDogvilleAnticristo) eu absorvo o argumento porque ele é bem elaborado e retratado no cinema (além de ser um cinema estupendo), em Melancolia eu não só refuto a opinião como o filme em si.

Primeiro, eu já enjoei da necessidade de Trier de precisar provar a todo o instante que o único sentimento que dignifica o ser humano é o sofrimento. É um argumento plausível em Anticristo, que tem início no luto, mas aqui a depressão da personagem principal é apenas uma retratação da persona do diretor enquanto observa os em sua volta. Segundo, a divisão do filme também divide o teor. A primeira parte é debochada com sua história tanto quanto as pessoas são umas com as outras na festa; a segunda, mais sóbria, finalmente dá significado de ser do filme. Mas até aí já sacamos qual é a do diretor.

Tornar Melancolia uma seção de tratamento da crise depressiva pela qual passou em Anticristo é algo notável. Porém o filme, que se repete e se anula, traz apenas uma visão de que Trier, sempre muito flexível em argumentar e dar a sua visão de mundo, está se fechando em seu próprio ego. Melancolia é lindo — possui uma das fotografias mais magníficas da filmografia do dinamarquês, e Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg entregam atuações fantásticas, o normal de qualquer filme do diretor. Mas é, dentro dessa filmografia, uma versão menos densa de um cara que já entregou o mesmo, dez vezes melhor.

  • Prós: visual e sonoramente lindo; atuações fantásticas das duas personagens principais; um dos finais do mundo mais lindos que se pode ver no cinema.
  • Contras: Lars Von Trier se repetindo e apresentando uma obra menos completa; um diretor claramente se fechando em seu próprio ego.
  • Veredicto: belo e bem produzido, com o traço inconfundível de Trier, Melancolia peca por trazer, de novo e com menos charme, o pessimismo do diretor, que corre o risco de se estagnar aí.

Melancolia (Melancholia, 2011). Dinamarca, Suécia, França, Alemanha, Itália. Escrito e dirigido por Lars Von Trier; fotografado por Manuel Alberto Claro; editado por Molly Marlene Stensgård, Morten Højbjerg; com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Cameron Spurr, Alexander Skarsgård, Stellan Skarsgård, Charlotte Rampling, John Hurt.

Publicado por Arthur

Eu faço sites e vejo filmes.

Se junte à conversa

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.